Há algum tempo, inspetores da Divisão de Segurança Alimentar da Coreia do Sul estavam navegando por avaliações de restaurantes online quando se depararam com algo desagradável: formigas. Centenas, milhares de formigas. Para espanto dos fiscais, as avaliações de um dos estabelecimentos mais prestigiados de Seul apresentavam nada menos que um sorvete salpicado com insetos, uma guarnição que o chef pretendia dar à sobremesa um toque azedo. A receita estava funcionando tão bem que era servida desde 2021.
Havia apenas um problema: era ilegal.
O que aconteceu?
A criatividade culinária de um chef sul-coreano está prestes a lhe custar caro. Muito caro. A mídia local revelou que a Procuradoria do Distrito Oeste de Seul solicitou uma pena severa para o proprietário de um restaurante na capital por violar a Lei de Segurança Alimentar.
O mais curioso é a acusação. O estabelecimento em questão não negligenciou a higiene nem serviu comida ou bebida estragadas. Seu (suposto) erro foi incluir formigas como um dos ingredientes.
Formigas na cozinha?
Ao consultar avaliações online, funcionários do Departamento de Segurança Alimentar e Farmacêutica do país se depararam com menções estranhas sobre um restaurante de Seul: além de mencionarem suas carnes, peixes, vinhos e sobremesas, os clientes se referiam a um sorvete coberto com insetos. Para ser mais preciso, o chef estava usando formigas pretas secas importadas diretamente dos Estados Unidos e da Tailândia.
O mais curioso é que esse não era um fenômeno novo. Segundo a imprensa local, o restaurante começou a comprá-las em 2021, o que significa que a sobremesa já estava no cardápio há anos.
Então, qual é o problema?
Gostos e escrúpulos à parte, a principal questão é que a legislação sul-coreana é muito rigorosa quanto ao que pode e não pode ser usado na indústria de serviços alimentícios. E as formigas pretas se enquadram nessa última categoria, a proibida.
Não que a legislação do país proíba a venda de insetos para consumo humano, mas sua lista é muito restrita e precisamente definida: limita-se a cerca de dez espécies, incluindo gafanhotos, larvas de farinha, grilos, polpa de abelha-bombus e pupas de bicho-da-seda.
Nada de formigas.
E se quiserem experimentar coisas novas?
Se um chef quiser ser original e experimentar novos ingredientes, pode, mas primeiro precisa solicitar autorização específica às autoridades. A Agência de Segurança Alimentar também insiste que é muito clara sobre o assunto e não tolerará desculpas.
"Qualquer pessoa pode verificar facilmente no site do departamento, entre outros sites, quais matérias-primas podem ser usadas em alimentos. Portanto, os operadores, em particular, devem primeiro verificar se uma matéria-prima é adequada para uso em alimentos antes de comprá-la ou utilizá-la."
Muitas foram vendidas?
Parece que sim. Segundo cálculos das autoridades, o restaurante serviu um total de 49 mil formigas em 12,2 mil taças de sorvete. O restaurante esclarece esse número e aponta alguns problemas. Primeiro, que não houve intenção maliciosa. O chef usou a receita nos EUA e na Europa para adicionar acidez aos seus sorvetes, mas, ao trazê-la para a Coreia do Sul, desconhecia a mudança na legislação.
Segundo, o estabelecimento ressalta que o ingrediente estava claramente identificado no cardápio, que oferecia diversas alternativas. Eram os próprios clientes que escolhiam se queriam ou não pedir o sorvete. Eles estimam que 60% deles tenham feito isso nos últimos anos.
E agora?
As autoridades de Seul divulgaram a notícia, mas sem revelar o nome do restaurante ou a identidade do proprietário e do chef. Aliás, nem se sabe se são duas pessoas diferentes ou se o chef também é o dono do estabelecimento. O que foi revelado é que o estabelecimento está localizado no distrito de Gangnam, na capital sul-coreana, e ostenta duas estrelas Michelin, o que, à primeira vista, o identifica como um restaurante de "excelente gastronomia".
No entanto, a criatividade do chef pode ter um preço alto. A agência de notícias Yonhap informa que a Procuradoria do Distrito Oeste de Seul solicitou uma pena de prisão de um ano para o proprietário do restaurante, além de uma multa de 20 milhões de won, aproximadamente € 12.000. O valor foi calculado com base nos lucros estimados, que as autoridades calculam em 120 milhões de won.
Não é um pouco excessivo?
Não é um pouco demais? Pode parecer uma punição excessivamente severa, mas o jornal The Chosun Daily relata que as autoridades sanitárias não apenas flagraram o estabelecimento violando as normas de segurança alimentar. Seus testes teriam concluído que as formigas usadas para polvilhar o sorvete "continham até 55 vezes mais metais pesados do que insetos comestíveis comuns".
Imagens | Marco Neri (Unsplash), Louis Hansel (Unsplash) e Ministério da Segurança Alimentar e Farmacêutica da Coreia do Sul
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