Hoje, o roxo é uma cor muito comum na moda, na publicidade e no cotidiano. Apesar disso, o tom praticamente desaparece quando o assunto são bandeiras nacionais. Entre os países do mundo, apenas Dominica, Nicarágua e El Salvador entram na lista de bandeiras que possuem roxo em seus elementos oficiais — e, mesmo assim, a cor aparece de maneiras bastante discretas.
A explicação para essa raridade não está em alguma regra sobre símbolos nacionais nem em uma preferência estética. Durante séculos, produzir um pigmento roxo era uma tarefa tão difícil e cara que a cor acabou associada à riqueza e à realeza.
Roxo já foi um dos pigmentos mais caros do mundo
Muito antes de existirem corantes produzidos industrialmente, uma das formas mais famosas de obter um roxo intenso era por meio da chamada púrpura tíria, produzida na região da antiga cidade de Tiro, na Fenícia, atual Líbano.
O pigmento era extraído de moluscos marinhos do gênero Bolinus e de espécies relacionadas. O processo era extremamente trabalhoso: era necessário coletar grandes quantidades desses animais, extrair suas secreções e submetê-las a uma série de etapas até obter o pigmento utilizado para tingir tecidos.
A dificuldade de produção fez com que a púrpura se tornasse um produto de luxo e um símbolo de poder. A cor passou a representar riqueza, autoridade e status porque poucas pessoas tinham condições de utilizá-la.
A associação foi tão forte que, em diferentes períodos da Antiguidade e da Idade Média, tecidos tingidos de púrpura ficaram ligados às elites políticas e religiosas.
Produzir uma pequena quantidade do pigmento já exigia uma enorme quantidade de matéria-prima. Fazer isso para tingir grandes peças de tecido era ainda mais caro. Por isso, ter o roxo na bandeira não bastava escolher a cor, seria necessário conseguir produzir e pagar pelo pigmento.
A situação mudou por causa de um experimento que deu errado
A história do roxo começou a mudar radicalmente no século XIX, quando a química passou a permitir a criação de corantes artificiais.
E uma das principais responsáveis por essa transformação foi justamente uma experiência que não saiu como planejado.
Em 1856, o químico britânico William Henry Perkin tinha apenas 18 anos quando tentava produzir quinina, substância utilizada no tratamento da malária na época.
O experimento fracassou. Em vez da quinina que procurava, Perkin encontrou um resíduo escuro.
Ao investigar o material e utilizar álcool para limpá-lo, percebeu que havia produzido uma solução de cor púrpura capaz de tingir tecidos.
O composto ficou conhecido como mauveína, também chamada de púrpura de anilina ou "mauve". A American Chemical Society reconhece a descoberta como o primeiro corante orgânico sintético.
Perkin percebeu que poderia produzir a substância a partir de compostos químicos derivados do alcatrão de carvão e passou a desenvolver uma maneira de fabricá-la em escala industrial. Ele patenteou o corante em 1856.
A cor ficou acessível quando muitas das bandeiras mais conhecidas do mundo já tinham suas identidades visuais definidas. Por isso, é muito raro encontrar uma bandeira que possua o roxo em sua composição.
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