Para quem sofre com nariz entupido, poucas soluções parecem tão eficazes quanto um spray nasal de ação imediata. Em poucos minutos, a respiração volta ao normal e o desconforto desaparece.
O problema é que esse alívio rápido pode esconder um mecanismo perigoso: dependência, efeito rebote ou até mesmo alterações na pressão arterial e no funcionamento do coração.
Por isso, medicamentos como o Neosoro, à base de vasoconstritores como a nafazolina, podem deixar de ser solução e se tornar parte do problema.
Como o spray nasal desentope o nariz em minutos
Os descongestionantes vasoconstritores atuam diretamente sobre a causa imediata da obstrução nasal: a dilatação dos vasos sanguíneos da mucosa.
A doutora em Neuroimunologia e professora de Farmacologia da Universidade Federal Fluminense (UFF), Carla Valéria Vieira Guilarducci, explica que o nariz nem sempre fica entupido apenas pelo acúmulo de secreções.
“Mas o que causa o entupimento do nariz? Diferente do que muita gente pensa, o nariz não fica congestionado apenas por excesso de catarro, mas sim porque os vasos sanguíneos da mucosa nasal se dilatam e inflamam, fazendo o tecido inchar e fechar a passagem de ar”, comenta a professora.
Para o funcionamento dos descongestionantes, Guilarducci explica que a nafazolina se liga aos receptores dos vasos sanguíneos que são responsáveis pela obstrução nasal.
Assim, ela reduz o tamanho das artérias e das veias e, consequentemente, diminui o fluxo de sangue que gera a inflamação na região.
Por isso, a mucosa nasal que estava inchada, segundo Carla, “‘murcha’ rapidamente e o espaço físico dentro das cavidades nasais é restaurado, desentupindo o canal e permitindo que o ar volte a fluir livremente”.
Apesar do alívio em poucos minutos, o resultado é temporário — um efeito que pode durar entre duas e seis horas. Além disso, não possui ação terapêutica sobre a causa da inflamação.
Uso contínuo pode causar rinite medicamentosa e dependência
O uso contínuo desses medicamentos por mais de três a cinco dias pode levar ao desenvolvimento da chamada rinite medicamentosa, condição em que o próprio descongestionante passa a agravar a obstrução nasal.
“É uma reação rebote em que a mucosa nasal inflama e incha ainda mais assim que o efeito do medicamento passa, obrigando o usuário a aplicar o produto em intervalos cada vez menores”, explica a especialista.
Descongestionantes possuem ação temporária. Foto: Shutterstock
Esse processo de uso indiscriminado acaba levando à adaptação ao estímulo provocado pelo descongestionante, desencadeando resistência à fórmula do medicamento.
O desfecho é um ciclo vicioso: a dose habitual perde o efeito, trazendo uma falsa sensação de que é necessário administrar o medicamento com mais frequência.
Por que um remédio aplicado no nariz pode aumentar a pressão arterial
Apesar de serem aplicados localmente, os descongestionantes podem ser absorvidos pela corrente sanguínea devido à alta vascularização da mucosa nasal e também por ingestão parcial do medicamento.
Com isso, o efeito deixa de ficar restrito ao nariz. Os vasos sanguíneos de outras regiões do corpo também podem sofrer contração, tornando a passagem do sangue mais difícil.
Consequentemente, o coração precisa exercer mais força para manter a circulação funcionando normalmente — podendo levar ao aumento da pressão arterial, especialmente em pessoas que já possuem hipertensão ou histórico de doenças cardiovasculares.
Entre os possíveis efeitos colaterais estão:
- Elevação da pressão arterial;
- Palpitações;
- Taquicardia;
- Bradicardia reflexa (diminuição dos batimentos cardíacos
- Arritmias;
- Insônia e agitação.
Carla alerta: “pacientes hipertensos ou com problemas cardíacos devem evitar o uso desses sprays sem orientação médica ou do farmacêutico, pois o impacto na circulação geral pode ser perigoso”.
Uso indiscriminado de descongestionantes com vasoconstritores pode causar aumento da pressão arterial. Foto: Shutterstock
Por que algumas pessoas sentem que não conseguem mais ficar sem o spray
A dependência criada pelos descongestionantes não está relacionada apenas às alterações que acontecem na mucosa nasal. O uso repetido também pode gerar um vínculo psicológico com o medicamento.
Como o alívio acontece em poucos minutos, muitas pessoas passam a associar o spray à sensação de bem-estar e à capacidade de respirar normalmente, recorrendo ao produto de forma automática diante de qualquer sinal de obstrução.
“Por ser um produto barato e de venda livre, muitos pacientes muitas vezes não se enxergam como dependentes, mas o mecanismo de tolerância e a crise de abstinência local funcionam exatamente como um vício tradicional”.
Em muitos casos, o uso passa a ocorrer de forma preventiva, especialmente antes de dormir, acompanhado de ansiedade pela possibilidade de obstrução nasal.
“A pessoa desenvolve o hábito preventivo de usar o spray (como antes de dormir) pelo medo de ter o sono interrompido pelo bloqueio nasal na madrugada, gerando crises de ansiedade se notar que está sem o frasco por perto”, explica a Guilarducci.
A esteticista Thafnes de Almeida, de 25 anos, afirma que depende do uso noturno do medicamento para conseguir dormir, mesmo tendo consciência de que os descongestionantes não tratam a causa da rinite.
“Consigo ficar sem usar durante o dia, mas antes de dormir preciso usar para desentupir e eu conseguir dormir bem”, afirma.
Maioria dos usuários recorre ao medicamento sem orientação profissional
Uma pesquisa publicada em 2024 no Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences reforça a dimensão do problema. O levantamento, com 112 participantes, mostrou que 48,2% fazem uso de descongestionantes nasais, sendo que 62,9% utilizam os medicamentos sem prescrição médica ou orientação farmacêutica.
Fabricante afirma que produto deve ser usado por tempo limitado
Em posicionamento oficial para o Xataka Brasil, a Neo Química — fabricante do Neosoro — afirma que o descongestionante possui categorias distintas de produtos. As versões à base de cloreto de sódio são indicadas para higiene nasal, enquanto o Neosoro Adulto, com cloridrato de nafazolina, é destinado ao alívio temporário da congestão nasal.
Soluções com vasoconstritores devem ser utilizados por até cinco dias. Foto: Shutterstock
A empresa reforça que o uso deve seguir a bula, com recomendação de até cinco dias, e destaca que não compactua com o uso indiscriminado, enfatizando a importância do diagnóstico médico adequado.
Especialistas alertam para os riscos de um hábito que parece inofensivo
Apesar de amplamente utilizados, descongestionantes nasais à base de vasoconstritores seguem sendo vistos como medicamentos de baixo risco pela população. No entanto, especialistas alertam que o uso prolongado pode transformar uma solução sintomática em um ciclo de dependência com efeitos adversos.
O maior risco, segundo especialistas, é a falsa sensação de segurança: os descongestionantes são medicamentos que parecem simples, mas podem ter impacto importante quando usados fora do tempo recomendado.
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