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Henry Ford: "Prefiro que 20 mil funcionários sejam felizes e bem alimentados do que alguns se tornem milionários"

Henry Ford construiu sucesso com decisão ousada: distribuir US$ 10 milhões em dividendos entre funcionários

Força de trabalho da Ford era assolada por faltas e alcoolismo

Imagem | Wikipedia
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PH Mota

Redator
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PH Mota

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Jornalista há 15 anos, teve uma infância analógica cada vez mais conquistada pelos charmes das novas tecnologias. Do videocassete ao streaming, do Windows 3.1 aos celulares cada vez menores.

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Na véspera do Dia de Reis, em 1914, um anúncio surpreendente apareceu no The New York Times: Henry Ford, CEO da Ford Motor Company, distribuiria dez milhões de dólares entre seus funcionários. Ao longo de 1914, o pagamento seria feito semestralmente e adicionado ao salário de cada trabalhador.

A quantia de US$ 10 milhões, como o próprio Henry Ford confirmou ao jornal em uma edição alguns dias depois, era uma estimativa. Ele planejava distribuir esse valor no final do ano, mas poderia chegar a US$ 12 milhões. Ou poderia ser menos. Esses US$ 10 milhões representavam metade dos lucros esperados para o final do ano.

No dia seguinte à publicação do anúncio, o The New York Times noticiou o caos: 10 mil funcionários apareceram nos portões da fábrica da Ford em Detroit para conseguir um novo emprego. Naquele dia, a empresa já pagava outros 15 mil funcionários, para quem entrar na fábrica era mais difícil do que nunca.

"Acredito que seja melhor para a nação, e muito melhor para a humanidade, que 20 ou 30 mil pessoas sejam felizes e bem alimentadas do que algumas se tornem milionárias", disse o próprio Ford ao jornalista que foi cobrir a história.

O anúncio causou tanto alvoroço na época que muitos mudaram de emprego para se juntar às linhas de montagem do Ford Modelo T, como explicado no início do mesmo artigo, que relata o caso de um garoto de 16 anos que trocou o campo pela fábrica.

Mas também gerou controvérsia entre os concorrentes, a ponto de alguns questionarem se o dono da empresa estaria praticando algum tipo de conduta anticompetitiva, como relatado pela Barrons. "Se a Ford quer se divertir, que se divirta. Ela pode se dar a esse luxo. Outras não", comentou o rival Joseph J. Cole sobre o Dia dos Cinco Dólares.

Dia dos Cinco Dólares

No Dia de Reis de 1914, um dia após a publicação do anúncio mencionado no The New York Times, o Detroit Free-Press se referiu à data como o "Dia dos Cinco Dólares".

Isso exemplificava a política da Ford de pagar a seus funcionários pelo menos cinco dólares com essa nova medida, o dobro do que vinha pagando até então. Como já mencionamos, e como o próprio Henry Ford tentou explicar no artigo do The New York Times, não se tratava de um aumento salarial. O trabalhador continuaria ganhando o mesmo valor, mas, segundo seus cálculos, esse seria o valor que receberiam se um dividendo de 10 milhões de dólares fosse dividido entre todos.

Quando perguntaram a Ford se ele era um "socialista" por distribuir os lucros entre seus funcionários, ele negou imediatamente. Mas explicou sua teoria: se os trabalhadores tivessem um bom desempenho, deveriam receber uma parte desses lucros. E se tivessem incentivo para ganhá-los, trabalhariam ainda melhor. Além disso, não havia exceções; o zelador e o supervisor da linha de produção receberiam seus respectivos dividendos. Em outras palavras, uma estratégia de remuneração por desempenho sem distinção.

O que Henry Ford descobriu foi que a produção em linha de montagem era fundamental para estabelecer o domínio de seu carro sobre a concorrência. Um volume de produção maior significava custos menores para a marca e custos menores para o cliente. Se os salários atraíssem trabalhadores, havia uma chance maior de atrair mais funcionários e continuar alimentando a linha de produção.

O resultado é que, em um mercado onde ninguém mais conseguia produzir seus carros naquele ritmo e preço, o Ford Modelo T se tornou o carro mais vendido do mundo. De fato, ele permanece entre os 10 carros mais vendidos da história, mesmo com o processo de produção refinado ao extremo.

A produção em massa de automóveis transformou completamente a indústria. O fordismo estabeleceu suas bases recompensando os trabalhadores. Muito já se escreveu sobre isso, sobre a intenção de Henry Ford de criar uma nova classe média e fazer com que ela fosse a consumidora dos produtos que fabricava.

A Forbes questiona essa teoria tão difundida. Eles explicam que, ao aumentar os salários, Henry Ford visava garantir uma força de trabalho comprometida com a empresa e com baixíssima rotatividade. O trabalho era exigente e, somente em 1913, mais de 52 mil pessoas passaram pela empresa, embora a fábrica empregasse apenas 13 mil. Essa alta rotatividade impedia que a linha de montagem operasse em plena capacidade, pois era preciso encontrar substitutos e treinar os funcionários.

Eles chegam a afirmar que a linha de montagem foi paralisada em determinado momento devido ao grande número de funcionários que se demitiram em busca de outros empregos, embora, naquela época, ganhar pouco mais de dois dólares já fosse uma boa quantia. Dobrar o salário para cinco dólares era uma promessa difícil de acreditar, mas também difícil de recusar.

A Forbes destaca que a Ford chegou a contratar pessoas para irem às casas dos funcionários e certificarem que eles estavam se comportando "à maneira americana". Ou seja, que estavam evitando más companhias e não se embriagando fora do expediente. O alcoolismo era um dos maiores problemas enfrentados pela linha de montagem da empresa. O pagamento da parte correspondente do bônus dependia do veredito dessas pessoas.

O que esta publicação explica é que a teoria de que a Ford queria que seus próprios funcionários comprassem seus produtos não é verdadeira porque, simplesmente, isso teria um impacto muito pequeno nos resultados da empresa. No entanto, eles enfatizam que, às vezes, a maneira mais rápida de reduzir custos é aumentar os salários, por mais paradoxal que isso possa parecer.

Contam que John R. Lee, conselheiro de Ford, defendeu sua posição afirmando que "um homem que vem de um lar estável, que não teme pelas necessidades básicas daqueles que ama, que não vive com o medo constante de perder o emprego por razões fora de seu controle, é o fator econômico mais poderoso que podemos usar na forma de um ser humano".

Atraídos por um ambiente de trabalho mais estável ou pela promessa de um salário incomparável no mercado, esses trabalhadores produziram milhões de unidades, que venderam para seus próprios funcionários, mas, sobretudo, para vários milhões de outros clientes para os quais Henry Ford tinha apenas uma oferta:

Qualquer cliente pode ter um carro pintado da cor que quiser, desde que seja preto.

Uma afirmação que, segundo o Diariomotor, também não era totalmente verdadeira.

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