E se a morte não fosse necessariamente o ponto final, mas apenas o momento em que começa uma espera de séculos? É essa aposta que leva algumas pessoas a entregar seus corpos a tanques de nitrogênio líquido depois da morte, na esperança de que, um dia, a medicina consiga fazer o que hoje ainda não consegue: trazer os mortos de volta à vida.
Em 2026, espera-se que mais de 650 pessoas já estejam criogenicamente preservadas no mundo, enquanto outras milhares aguardam para passar pelo procedimento. Na Austrália, sete corpos permanecem armazenados a -196 °C pela Southern Cryonics; na Coreia do Sul, três pessoas também escolheram ser congeladas. A expectativa é que, daqui a 250 anos, uma tecnologia ainda inexistente possa finalmente dar uma segunda chance a esses corpos.
Corpos são resfriados logo após a morte e mantidos a -196 °C
A criopreservação humana é uma técnica experimental que busca conservar um corpo humano em temperaturas extremamente baixas após a morte, na tentativa de evitar sua deterioração enquanto se espera por possíveis avanços da medicina. A ideia não é congelar o corpo da forma que conhecemos, já que a formação de cristais de gelo pode danificar as células.
É justamente para tentar reduzir esse tipo de dano que o processo precisa começar o mais rapidamente possível após a morte. O corpo é resfriado e bolsas de gelo são colocadas ao redor da cabeça, enquanto uma solução crioprotetora semelhante ao anticongelante substitui o sangue. Essas substâncias ajudam a evitar a formação de cristais de gelo e preparam os tecidos para uma etapa chamada vitrificação.
Na vitrificação, o material biológico passa a um estado sólido semelhante ao vidro, sem a formação convencional de cristais de gelo. Segundo a Southern Cryonics, essa etapa leva cerca de oito horas. Depois da estabilização, o corpo é colocado de cabeça para baixo em um recipiente chamado Dewar, uma espécie de enorme garrafa térmica preenchida com nitrogênio líquido.
Na instalação australiana, os sete corpos atualmente preservados permanecem a -196 °C. O primeiro paciente chegou ao local em maio de 2024, aos 80 anos. O caso mais recente ocorreu em junho de 2026, com um homem de 90 anos. A pessoa mais jovem preservada pela empresa é uma mulher que morreu aos 40 anos.
A estrutura de Holbrook, em Nova Gales do Sul, é apresentada por seus operadores como a única instalação de criopreservação humana do Hemisfério Sul e uma das seis existentes no mundo. E como já era de se imaginar, o procedimento não é nada barato. Na Southern Cryonics, a preservação completa custa cerca de 210 mil dólares australianos, o equivalente a 770 mil reais. Há ainda uma taxa anual de 350 dólares australianos.
A ciência já congela células e embriões, mas ainda não sabe ressuscitar um morto-vivo
O cérebro é uma das estruturas mais importantes na criopreservação, já que preservar suas conexões pode ser essencial para manter memórias, identidade e outras funções após um eventual descongelamento
Congelar material biológico para prolongar sua conservação não é exatamente uma novidade para a ciência, mas fazer isso com um corpo humano inteiro ainda está muito além do que a medicina consegue realizar. Espermatozóides, óvulos, embriões e algumas células sanguíneas já podem ser criopreservados e posteriormente utilizados. A ciência, inclusive, já conseguiu gerar vários nascimentos a partir de óvulos e embriões congelados por décadas, por meio de técnicas de reprodução assistida.
O problema é que a técnica não quer preservar apenas algumas células, mas um organismo humano inteiro. Segundo a especialista em criopreservação Saffron Bryant, da RMIT University, a tecnologia atual ainda não permite preservar perfeitamente um corpo humano completo. Um dos principais obstáculos é fazer com que o crioprotetor alcance todos os tecidos de maneira uniforme. Isso porque o próprio resfriamento cria outro problema: enquanto as partes externas do corpo podem esfriar rapidamente, órgãos e tecidos mais profundos demoram mais para atingir a mesma temperatura. No descongelamento, a dificuldade se repete, já que diferentes regiões do organismo também podem aquecer em velocidades diferentes.
E existe uma preocupação ainda maior: o cérebro. Mesmo que fosse possível preservar o corpo fisicamente, seria necessário manter intactas as estruturas responsáveis por armazenar informações relacionadas à memória e à identidade. Danos às sinapses poderiam significar a perda de memórias ou de características da personalidade. E é esse detalhe que torna difícil crer na promessa de “acordar no futuro”. Preservar um cérebro não significa, com a tecnologia disponível hoje, demonstrar que a consciência, as memórias e a identidade de uma pessoa poderão ser recuperadas após o descongelamento.
Pesquisadores já conseguiram restaurar parcialmente atividade elétrica em tecido cerebral de camundongos após a criopreservação, mas não existem limitações técnicas importantes para transportar esse resultado para um cérebro humano. Ainda assim, o interesse pela prática continua crescendo. As estimativas apontam para mais de 650 pessoas já criopreservadas em 2026 e mais de 4 mil na lista de espera de organizações especializadas. Entre elas estão as três pessoas da Coreia do Sul que decidiram apostar em uma tecnologia que, por enquanto, pertence mais ao futuro do que ao presente.
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