Ainda não está claro se estamos lidando com um hacker solitário ou com um grupo organizado, mas uma coisa é certa: o codinome Jabaroot se tornou um pesadelo para as autoridades do Marrocos. Até agora, o invasor vazou um volume expressivo de informações confidenciais — incluindo cadastros da Previdência Social, arquivos judiciais e, mais recentemente, dados pessoais de dezenas de milhares de agentes de inteligência marroquinos.
Ao longo de mais de um ano, o coletivo — que ninguém conseguiu identificar de forma conclusiva — quebrou a segurança digital de várias instituições do governo marroquino. O detalhe mais intrigante é o momento escolhido para cada ação: os vazamentos surgem estrategicamente em períodos de forte tensão política, sendo o caso mais recente a crise migratória na fronteira com Ceuta.
O histórico de ataques em série
O Jabaroot entrou em cena no dia 8 de abril de 2025, publicando no fórum cibercriminoso BreachForums e no Telegram para reivindicar a autoria de uma invasão contra a Caixa Nacional de Segurança Social (CNSS) do Marrocos. De acordo com a empresa de cibersegurança CybelAngel, o vazamento reunia mais de 53 mil arquivos PDF e dois bancos de dados volumosos em formato CSV. O material expunha salários, documentos de identidade e contas bancárias de quase 2 milhões de trabalhadores e cerca de 500 mil empresas, em sua maior parte em texto simples, sem criptografia.
Na ocasião, o grupo justificou o ataque como uma retaliação à invasão prévia do perfil no X da Agência de Notícias da Argélia. A conta argelina havia sido adulterada para exibir mensagens sobre a disputa territorial no Saara Ocidental, segundo as apurações da CybelAngel.
A partir desse episódio, a ofensiva cibernética se intensificou em ondas sucessivas. Em junho de 2025, o Jabaroot assumiu a autoria de invasões ao Tawtik — plataforma de digitalização notarial do país — e à ANCFCC, a agência nacional responsável pelo registro de imóveis. A gravidade do incidente forçou esses órgãos a suspender os atendimentos digitais e retomar temporariamente os processos manuais em papel, conforme noticiou o Morocco World News.
Poucos dias depois, os invasores também afirmaram ter acessado sistemas do Ministério da Justiça, alegando ter capturado informações confidenciais de cerca de 5 mil magistrados e 35 mil servidores do Judiciário.
O golpe mais recente aconteceu há poucos dias, quando o Jabaroot declarou ter divulgado registros pertencentes a aproximadamente 70 mil membros dos dois principais órgãos de segurança e inteligência do Marrocos: a DGST (vigilância do território) e a DGSN (polícia nacional). A operação recebeu o codinome “OP_CEUTA”, em referência direta à crise migratória no enclave espanhol de Ceuta, segundo reportaram o perfil de inteligência de ameaças Hackmanac e o portal Euronews.
Quem está por trás do Jabaroot?
Inicialmente, o grupo se apresentou como um coletivo de “patriotas argelinos”. Essa versão, porém, nunca foi confirmada de maneira independente. Conforme divulgou o jornal espanhol El Confidencial, a partir de análises da consultoria Navakintelligence, existe a teoria de que o autor seja um único ex-agente de inteligência agindo por conta própria. Por outro lado, a empresa de cibersegurança Zecurion afirmou em 2025 ter rastreado pistas que levavam a um engenheiro de computação tunisiano residente na Alemanha.
Para complicar ainda mais o cenário, o canal oficial do Jabaroot no Telegram saiu do ar misteriosamente e novas contas surgiram com o mesmo nome, porém com um estilo de comunicação diferente. Essa instabilidade dificulta confirmar se todas as ações assinadas sob essa alcunha vêm das mesmas pessoas ou de operadores distintos se aproveitando da notoriedade da marca.
A reviravolta política de Ceuta
Em um movimento abertamente político, o Jabaroot classificou a exposição dos agentes de inteligência como um “presente para a Europa e, em especial, para a Espanha”, atrelando a ação diretamente à crise migratória em Ceuta. O invasor foi além e declarou possuir evidências de que autoridades marroquinas teriam colaborado para orquestrar as travessias em direção ao território espanhol, ameaçando liberar a íntegra da base de 70 mil nomes se suas exigências não forem atendidas, conforme detalhou a Euronews.
Apesar do impacto das ameaças, especialistas em segurança digital recomendam prudência. O portal Undercode News reforçou que afirmações feitas em fóruns da dark web não equivalem a um vazamento comprovado. Até o momento, não há confirmação se os registros vieram de uma invasão real aos sistemas da DGST e da DGSN ou se foram compilados a partir de bases governamentais antigas já expostas.
Matéria traduzida de Xataka*
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