O primeiro quiosque de praia da história começou com um saque e vendo dezenas de marinheiros morrerem em uma cidade da Espanha

Após 166 tripulantes morrerem afogados e terem até os botões roubados, um acampamento com dez barracas na costa espanhola deu origem a uma cantina para 200 pessoas

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Bárbara Castro

Redatora

Basta a fome bater na praia para procurar um quiosque e pedir um petisco: uma cerveja gelada, uma porção de batatas, espetinhos ou torresmo. Mas e se você soubesse que esse formato clássico de comer e beber à beira-mar nasceu de um trágico naufrágio?

No entardecer de 1º de fevereiro de 1752, uma violenta tempestade afundou um navio histórico em frente à praia de La Barrosa, entre as torres del Puerco e Bermeja. A embarcação encalhou a apenas alguns metros da faixa de areia.

Cádis soube da tragédia naquela mesma noite. Dois representantes oficiais e um capataz chamado Matías Capolino cruzaram a baía e ergueram, antes do amanhecer, as primeiras seis barracas junto à Torre del Puerco. Assim começava a operação de resgate mais longa da costa gaditana — e, sem que ninguém suspeitasse, o embrião do comércio de praia mais antigo da Espanha.

Um navio, duas vidas

Oficialmente, a embarcação se chamava San Francisco de Asís, construída em 1738 nos estaleiros de Guarnizo. Em 1740, passou a se chamar Soberbio por ordem de seu proprietário, Guillermo Terry, um armador de Cádis cuja família irlandesa havia trocado a cidade de Cork pelo litoral espanhol meio século antes.

Gerações mais tarde, seus descendentes fundariam as famosas vinícolas e destilarias de conhaque que ainda levam seu sobrenome. Terry fez fortuna no comércio com as Índias e, graças à sua proximidade com o ministro José Patiño, responsável por reestruturar a marinha espanhola sob o reinado de Felipe V.

Por volta de 1750, os irlandeses já formavam a terceira maior colônia estrangeira de Cádis, atrás apenas dos genoveses e franceses: um quinto da população local vinha de fora. Quando o Soberbio zarpou, em 11 de dezembro de 1751, carregado de ouro, prata e moedas coloniais, tudo corria com perfeição até a tempestade arremessá-lo contra os recifes entre Chiclana e Conil.

Sem saber nadar, 166 tripulantes gritavam por socorro para os moradores que assistiam à cena da costa. Após vinte horas de agonia, todos morreram afogados. O desastre custou o navio a Terry, mas não a sua imensa fortuna.

A corrida pelo saque na praia

Moradores de Chiclana e Conil desceram às pressas até a praia de La Barrosa para saquear tudo o que as ondas devolviam, incluindo os corpos: arrancavam até os botões de ouro e prata das roupas dos mortos. O cabo Juan Ignacio Piñeiro precisou intervir armado para dispersar uma multidão já descontrolada.

Os primeiros dias foram de puro caos, por mais que a milícia permanecesse de prontidão nas areias. As autoridades então criaram uma saída engenhosa: uma recompensa de 8% do valor recuperado para quem devolvesse os bens. O mau tempo não deu trégua até o dia 9 de fevereiro, quando as primeiras barcas finalmente conseguiram se aproximar dos destroços e demarcá-los com uma boia.

O acampamento que virou atração turística

A operação de resgate durou um ano inteiro. Naquela época, La Barrosa era um recanto completamente deserto. A água potável precisava ser trazida de Chiclana, até que operários descobriram nascentes de água doce nos arredores — às quais logo atribuíram propriedades curativas, criando uma espécie de turismo termal improvisado, dois séculos e meio antes de se falar em turismo de bem-estar.

O que começou como tragédia logo virou negócio. Ergueu-se um acampamento com dez barracas feitas, em parte, com as próprias madeiras trazidas pelo mar, capaz de abrigar cerca de 200 pessoas.

O acampamento gerou empregos e sustentou um mercado permanente para militares, mergulhadores e curiosos que viajavam apenas para avistar o navio submerso. A pesquisadora Genoveva Enríquez definiu o episódio como "o naufrágio mais documentado do mundo".

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A primeira "barraquinha" de praia da história

Entre essas duas centenas de pessoas trabalhava um cozinheiro, Bautista Pesero, contratado com remuneração tabelada pelas autoridades: cinco réis (reales) pelo almoço e jantar dos chefes e três réis para a comida dos demais trabalhadores.

Percebendo a demanda, ninguém o impediu de construir, do próprio bolso, uma segunda barraca bem ao lado, onde tinha total liberdade de preços e produtos. Assim, dois modelos conviviam lado a lado: a cantina institucional e a privada.

Não há registro de uma única queixa dos homens contra o serviço — algo extraordinário para um destacamento militar —, o que sugere que, além de esperto nos negócios, Pesero cozinhava muito bem.

Os diários do acampamento detalham os mantimentos: pão branco e integral, carne de porco salgada, carneiros, galinhas, ovos, manteiga de Flandres, grão-de-bico, bacalhau, atum, queijos, chocolate, vinhos de Jerez e açúcar. Além disso, pescadores locais forneciam remessas diárias de carapaus, chocos e garoupas, enquanto a loja do acampamento vendia romãs frescas.

A base culinária consistia em azeite e panela de ferro: uma autêntica comida caseira, econômica em especiarias, que custavam uma verdadeira fortuna. Com o tempo, o acampamento foi sendo desmontado após a morte do empreiteiro Capulino, em julho de 1753. No final, a missão atingiu seu grande objetivo: 91% de todas as moedas afundadas foram recuperadas.

Um achado arqueológico fortuito

Séculos depois, o projeto Vestigium, do Centro de Arqueologia Subaquática do IAPH, cruzou antigos registros cartoriais com prospecções na zona entremarés do litoral de Cádis. Foi assim que a Prefeitura de Chiclana e a secretária Milagros Alzaga instalaram sinalizações com totens e QR codes no ponto exato em frente às torres históricas.

A iniciativa transformou cinco trechos litorâneos da província em museus a céu aberto. Já a historiadora Enríquez chegou aos registros do Soberbio por acaso, enquanto realizava pesquisas documentais independentes.

Matéria traduzida de Xataka*

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