Se você usa canetas para emagrecer, a ciência tem um alerta: parar agora pode ativar uma bomba-relógio no seu metabolismo

Estudo mostra que o peso perdido tende a voltar até quatro vezes mais rápido após a interrupção do tratamento

Mounjaro injeções. Créditos: ShutterStock
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Laura Vieira

Redatora
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Laura Vieira

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Jornalista recém-formada, com experiência no Tribunal de Justiça, Alerj, jornal O Dia e como redatora em sites sobre pets e gastronomia. Gosta de ler, assistir filmes e séries e já passou boas horas construindo casas no The Sims.

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As canetas injetáveis para emagrecimento, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, desenvolvidas originalmente para o tratamento do diabetes tipo 2, se popularizaram e passaram a ser usadas também no combate à obesidade. No entanto, abandonar o tratamento pode produzir um efeito contrário ao esperado. Um estudo publicado em janeiro de 2026 no British Medical Journal revelou que o peso perdido com esses medicamentos pode retornar até quatro vezes mais rápido do que em pessoas que emagreceram apenas seguindo dieta e praticando exercícios físicos.  A pesquisa foi conduzida por pesquisadores da Universidade de Oxford e avaliou dados de milhares de pacientes ao longo de vários anos.

O que são as canetas emagrecedoras e como elas funcionam?

As canetas injetáveis para emagrecimento viraram uma febre nos últimos anos, impulsionadas principalmente pelos resultados rápidos e pela sua popularização nas redes sociais. No entanto, esses medicamentos não surgiram como uma solução estética: durante muito tempo, seu desenvolvimento esteve focado no tratamento do diabetes tipo 2 e, posteriormente, da obesidade. Medicamentos como Ozempic/Wegovy (semaglutida) e Mounjaro (tirzepatida) pertencem a uma classe de fármacos que imita hormônios naturais ligados à regulação do apetite, especialmente o GLP-1, um hormônio natural do intestino que regula a glicose, estimula a insulina, retarda o esvaziamento do estômago e aumenta a saciedade.

Mas como elas agem no organismo? Na prática, essas substâncias atuam de forma direta no cérebro e no sistema digestivo, reduzindo a sensação de fome, aumentando a saciedade e atrasando o esvaziamento do estômago. Essa combinação faz com que a pessoa coma menos e, consequentemente, emagreça.

Em ensaios clínicos, os resultados surpreenderam os médicos, com usuários chegando a perder entre 15% e 20% do peso corporal em menos de um ano. Esse desempenho é significativamente superior ao observado em dietas tradicionais baseadas apenas em alimentação e exercícios. Devido a eficácia dos resultados, as canetas transformaram-se em uma das principais apostas no tratamento da obesidade nos últimos anos. O problema é que essa eficiência cria uma dependência fisiológica difícil de ignorar quando o tratamento é interrompido.

Pesquisadores descobriram que quem para de usar as canetas, pode ganhar peso quatro vezes mais rápido do que as que fazem dieta

Mulher aplicando caneta emagrecedora. Desenvolvidas para tratar diabetes e obesidade, as canetas emagrecedoras ajudam a reduzir o apetite e aumentar a saciedade. Créditos: ShutterStock

Emagrecer não é um processo simples: exige constância, disciplina e mudanças difíceis de manter no longo prazo. Quando os resultados finalmente aparecem, a tentação de encerrar o tratamento é natural, especialmente no caso das canetas injetáveis para perda de peso, que custam uma média de R$ 1.200. O problema é que parar o uso desses medicamentos pode ter um efeito rebote significativo. É o que mostra uma nova revisão científica, que analisou o que acontece com o corpo de pacientes após a suspensão das canetas emagrecedoras.

A nova revisão sistemática analisou 37 estudos clínicos, envolvendo mais de 9 mil pacientes com sobrepeso ou obesidade. O foco foi observar o que acontece no organismo dos pacientes após a suspensão dos medicamentos para controle de peso. Os dados mostram que, em média, quem interrompe o uso dessas injeções recupera cerca de 0,8 kg por mês. Nesse ritmo, o peso corporal tende a voltar ao que era antes do tratamento em aproximadamente um ano e meio. Já pessoas que emagreceram apenas com dieta e atividade física recuperam o peso de forma bem mais lenta, com cerca de 0,1 kg por mês.

Segundo a Dra. Susan Jebb, pesquisadora da Universidade de Oxford, os resultados exigem cautela. Ela também ressalta que os dados vêm de ensaios clínicos e que ainda faltam estudos de longo prazo.

“As pessoas que compram esses medicamentos precisam estar cientes do risco de rápida recuperação de peso quando o tratamento termina”, afirmou em entrevista à BBC

Além disso, existe um outro ponto importante abordado na pesquisa. Além do retorno do peso, os benefícios cardíacos conquistados durante o uso, como melhora da glicemia, colesterol e pressão arterial, também tendem a desaparecer em pouco mais de um ano após a interrupção.

Entenda o que acontece no corpo quando o tratamento com as canetas emagrecedoras é interrompido

Durante o uso das canetas emagrecedoras, o emagrecimento parece ser bem mais simples do que em métodos tradicionais, que envolvem dieta restrita e prática constante de atividades físicas de alta intensidade. A redução do apetite e a sensação prolongada de saciedade criam a impressão de que o corpo “aprendeu” a comer menos. Mas é aí que está o x da questão: esse equilíbrio entre apetite e saciedade depende diretamente da presença do medicamento no organismo. 

O problema começa na forma como esses medicamentos atuam no organismo ao longo do tempo. As canetas emagrecedoras mantêm níveis elevados de GLP-1 de maneira contínua, um hormônio ligado ao controle da fome. Com essa estimulação constante, o corpo passa a produzir menos GLP-1 por conta própria e pode se tornar menos sensível a ele.

Enquanto o medicamento está ativo, isso não é um problema. Mas, quando param de tomá-lo, o apetite deixa de ser controlado  e volta com força total. Muitos pacientes descrevem a experiência como se “um interruptor fosse ligado”, trazendo fome intensa e compulsão alimentar.

De acordo com os pesquisadores, esse risco é ainda maior quando o medicamento é usado como solução única, sem mudanças alimentares ou comportamentais. É por isso que muitos médicos defendem que esse tipo de tratamento precisa ser contínuo, encarando a obesidade como uma condição crônica, assim como diabetes ou hipertensão. O desafio, no entanto, está no alto valor do medicamento, com custo mensal ultrapassando os R$1.200 no Brasil.


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