A percepção da regularidade geométrica nas formas, uma vertente da geometria elementar, foi durante muito tempo considerada uma habilidade exclusiva dos seres humanos. E não é por acaso, já que, desde estágios bastante precoces do desenvolvimento e em diversas culturas, nossa espécie demonstrou uma compreensão natural das regras espaciais.
A ciência agora demonstra que os corvos também possuem compreensão geométrica. Um marco cognitivo que reformula o que acreditávamos saber sobre a inteligência animal e a evolução da matemática pura.
As bases científicas mostravam uma lacuna significativa entre as habilidades humanas e as do restante do reino animal no que diz respeito à geometria euclidiana. Pesquisas anteriores já haviam observado que os primatas não possuíam a capacidade de reconhecer a regularidade geométrica em testes de percepção visual de formas — uma informação curiosa, já que esses animais são os primeiros que costumam vir à mente quando pensamos nessa propriedade.
Isso foi crucial para estabelecer que os humanos têm uma habilidade inata para processar a regularidade geométrica, pois a incapacidade recorrente de espécies como os babuínos, mesmo após treinamento intensivo, consolidou essa ideia. Ainda assim, os pesquisadores decidiram explorar essas capacidades em aves conhecidas por suas impressionantes habilidades cognitivas e aritméticas.
Telas sensíveis ao toque
Para testar a intuição espacial das aves, os cientistas da Universidade de Tübingen elaboraram um experimento baseado na detecção de anomalias visuais. Nesse caso, dois corvos machos de 10 e 11 anos foram treinados utilizando telas sensíveis ao toque instaladas dentro de câmaras de condicionamento.
Ali, as aves podiam observar uma matriz que mostrava seis formas simultaneamente na tela, e a tarefa consistia em detectar um “intruso”, ou seja, bicar a forma que diferia em seus parâmetros visuais em relação aos outros cinco estímulos-base.
Para a etapa final, foram utilizados cinco quadriláteros de referência organizados de acordo com seu nível de regularidade: o quadrado, o trapézio isósceles, o losango, a “dobradiça direita” e uma forma completamente irregular. A partir daí, as figuras “intrusas” eram geradas artificialmente deslocando o vértice inferior direito da figura original a uma distância fixa equivalente a 75% da distância média entre os vértices.
O mais impressionante observado foi a rapidez na compreensão do problema, já que os corvos foram capazes de aplicar imediatamente o conceito de detectar o intruso ao serem expostos aos novos conjuntos de quadriláteros.
Ambos os indivíduos superaram amplamente o nível do acaso (de 16,7%) já em suas primeiras tentativas, demonstrando que compreendiam a tarefa sem hesitar ou bicar aleatoriamente. Além disso, durante os primeiros 60 testes, o primeiro corvo alcançou 48,3% de acertos e o segundo, 56,7%.
O mais impressionante
O dado mais revelador desses testes foi justamente que as aves apresentaram desempenho significativamente melhor com formas que exibiam propriedades da geometria euclidiana pura, como ângulos retos, linhas paralelas e simetria.
É crucial destacar que essa vantagem no desempenho não exigiu um treinamento prévio extensivo; o efeito da regularidade já estava presente desde o início da fase de testes.
Por quê? Diante da pergunta lógica sobre por que os corvos conseguiram o que os primatas não conseguiram, os autores do estudo reconhecem diferenças metodológicas importantes em relação aos experimentos clássicos com babuínos. Neste caso, apontam que os corvos foram submetidos a um critério rigoroso de progressão durante o treinamento, precisando manter 75% de acertos ao longo de cinco sessões consecutivas. Em contraste, os babuínos só precisaram atingir um critério de 80% de respostas corretas uma única vez, sem a exigência de sessões consecutivas.
E, embora essa diferença possa dificultar uma comparação direta e exata entre as espécies, a principal conclusão é incontestável: os corvos reconhecem a regularidade geométrica.
Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.
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