O câncer, um grupo de mais de 100 doenças malignas caracterizadas pelo crescimento desordenado de células anormais, continua sendo um dos maiores desafios da medicina. De acordo com dados do National Cancer Institute, a doença provocou cerca de 9,7 milhões de mortes em 2022 e quase 20 milhões de novos casos foram diagnosticados no mundo no mesmo período.
Apesar de avanços na medicina no tratamento da doença, como terapias de imunoterapia e a medicina de precisão, que buscam estimular o próprio sistema imunológico a reconhecer e destruir tumores, muitos pacientes ainda não respondem bem aos tratamentos disponíveis.
Isso levou cientistas a investigarem uma abordagem médica totalmente inesperada, mas que pode influenciar diretamente a eficácia das terapias: o conjunto de microrganismos que vivem no intestino humano. Pesquisadores descobriram que a chamada microbiota intestinal, formada por trilhões de bactérias, vírus e fungos, pode influenciar a maneira como o sistema imunológico reage ao câncer.
Essa linha de investigação levou os cientistas a propor um tratamento inovador, mas bem estranho: usar microrganismos do intestino para reforçar a resposta do sistema imunológico contra tumores. Em alguns estudos recentes, essas bactérias chegaram a ser transformadas em cápsulas ingeríveis, criando uma espécie de “pílula de microbiota” que pode ajudar a preparar o organismo para reagir melhor aos tratamentos contra o câncer.
Uma pílula feita de fezes? Entenda como bactérias intestinais podem influenciar o combate ao câncer
Você já imaginou se medicar com uma pílula de fezes humanas? Inicialmente, a ideia pode parecer estranha e nojenta, mas é exatamente isso que cientistas estão investigando para o combate ao câncer. O procedimento, conhecido como transplante de microbiota fecal (TMF), consiste em transferir microrganismos presentes nas fezes de um doador saudável para o intestino de um paciente com câncer. O objetivo é restaurar ou modificar o equilíbrio da microbiota intestinal, um vasto ecossistema de bactérias que vive no nosso organismo e influencia diretamente o funcionamento do sistema imunológico.
Apesar de parecer nojento, a tática parece dar certo. Nos últimos anos, pesquisadores começaram a suspeitar que essas bactérias também poderiam interferir na forma como o corpo responde aos tratamentos contra o câncer, especialmente à imunoterapia. Para testar essa hipótese, equipes de pesquisa de centros oncológicos na Europa e nos Estados Unidos começaram a conduzir ensaios clínicos com pacientes que não respondiam bem aos tratamentos convencionais.
Um desses trabalhos é o estudo PERFORM, publicado em janeiro de 2026 na revista científica Nature Medicine. O ensaio clínico de fase 1 foi conduzido por uma equipe internacional liderada por cientistas do Netherlands Cancer Institute, em colaboração com outros centros de pesquisa europeus. O estudo avaliou a segurança do transplante de microbiota fecal combinado com imunoterapia em pacientes com carcinoma renal metastático. O estudo envolveu 20 pacientes e indicou que a estratégia pode ajudar a reduzir efeitos colaterais graves da imunoterapia, como inflamações intestinais que frequentemente obrigam os pacientes a interromper o tratamento.
Outro estudo é FMT-LUMINate, publicado em 2026 na mesma revista. O ensaio clínico de fase 2 foi conduzido por pesquisadores do MD Anderson Cancer Center, nos Estados Unidos, em colaboração com outros hospitais e centros de pesquisa. O trabalho investigou o uso do transplante de microbiota fecal em pacientes com câncer de pulmão de não pequenas células e melanoma. Os resultados sugerem que modificar a microbiota intestinal pode aumentar a eficácia da imunoterapia. No estudo, cerca de 80% dos pacientes com câncer de pulmão responderam ao tratamento, percentual significativamente maior do que o observado normalmente apenas com imunoterapia.
Para tornar esse tipo de tratamento mais simples e menos invasivo, os pesquisadores desenvolveram cápsulas de microbiota fecal processada, que podem ser ingeridas pelos pacientes. Essas cápsulas, produzidas a partir de fezes de doadores saudáveis e cuidadosamente filtradas e analisadas, funcionam como uma espécie de “pílula de microbioma”, capaz de reequilibrar as bactérias do intestino e potencialmente melhorar a resposta do organismo ao tratamento contra o câncer.
A descoberta é promissora, mas cientistas alertam: ainda é cedo para tratar o transplante de microbiota como solução contra o câncer
Apesar do entusiasmo gerado pelos primeiros resultados, especialistas ressaltam que o uso do transplante de microbiota fecal no tratamento do câncer ainda está em fase experimental. Um dos principais desafios é garantir a segurança do procedimento. Como o transplante envolve a transferência de microrganismos vivos de uma pessoa para outra, existe o risco de transmissão de patógenos ou de efeitos imprevisíveis no organismo do paciente.
Por isso, os doadores passam por um rigoroso processo de triagem para descartar doenças infecciosas ou alterações no microbioma que possam trazer riscos. Mesmo assim, a técnica ainda é considerada experimental quando aplicada em pacientes oncológicos.
Pesquisadores também buscam identificar quais bactérias específicas são responsáveis por estimular a resposta imunológica contra o câncer. A expectativa é que, no futuro, seja possível desenvolver medicamentos baseados apenas nesses microrganismos, sem necessidade de transplantes completos.
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