Jeff Bezos: "Toda a poluição pode ser enviada para o espaço para retornar ao estado anterior à Revolução Industrial"

  • Jeff Bezos acha que qualquer lugar da Terra poderia ter jardins tão belos quanto os de Paris;

  • O problema é que ele acha que tudo o que precisaríamos fazer seria enviar as fábricas para o espaço

Jeff Bezos: "Toda a poluição pode ser enviada para o espaço para retornar ao estado anterior à Revolução Industrial"
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Fabrício Mainenti

Redator

Todos estão preocupados com os efeitos do aquecimento global e com a forma como os data centers contribuem para uma Terra ainda mais poluída; no entanto, a resposta estava bem debaixo dos nossos narizes — ou melhor, debaixo do nariz de Jeff Bezos, para ser preciso:

"Tudo está melhor do que há 500 anos, mas temos mais poluição na Terra do que naquela época. Se enviarmos tudo isso para longe — se conseguirmos transportar toda a poluição das fábricas terrestres para fora do planeta — poderíamos retornar a um estado anterior à Revolução Industrial".

É irônico que alguém, em parte responsável pela crise de componentes e pela enorme demanda energética da IA ​​e dos data centers, acredite que podemos "transformar a Terra em um lugar cheio de parques, como Paris", simplesmente lançando foguetes ao espaço. O que Jeff Bezos parece ignorar é que a realidade é muito mais complexa.

O plano "perfeito" de Jeff Bezos tem várias falhas

A premissa apresentada pelo fundador da Amazon, Jeff Bezos, parece lógica no papel. Se aproveitarmos o que sabemos sobre energia solar, o frio do espaço e a vasta imensidão além dos nossos céus, transferir data centers para a órbita — em vez de mantê-los aqui consumindo espaço, energia e recursos — parece um plano infalível. O problema é que ele tem falhas. Várias.

A ideia de encarar o espaço como um terreno baldio e desolado, onde qualquer um pode simplesmente fincar sua bandeira, é míope. A órbita baixa da Terra — a própria região que Bezos imagina para suas fábricas de satélites — já está congestionada com cerca de 43 mil objetos rastreados, e esse número continua aumentando.

Essa estratégia implica não apenas que o espaço está se tornando um recurso cada vez mais limitado, mas também que corremos o risco de obstruí-lo — ou até mesmo de enfrentar uma reação em cadeia catastrófica causada pela superlotação, algo que poderia explodir na nossa cara. Literalmente.

A noção de que as baixas temperaturas do espaço proporcionariam "resfriamento gratuito" é outro mito que precisa ser derrubado. O calor que os data centers precisam dissipar — que, na Terra, é gerenciado com o uso de recursos hídricos — teria de ser controlado no espaço por meio de convecção: o processo de circulação de ar ou água para transportar o calor para outro local.

O problema é que a convecção não ocorre no vácuo; portanto, seria necessária energia elétrica para alimentar os radiadores encarregados dessa tarefa.

Considere um exemplo para ilustrar o quão impraticável isso é. A Estação Espacial Internacional, por exemplo, dissipa cerca de 70 kW de calor utilizando radiadores que cobrem aproximadamente 422 metros quadrados. Um data center de 10 MW exigiria uma área de superfície de radiadores equivalente a nove campos de futebol para alcançar o mesmo resultado. Com a tecnologia e a infraestrutura atuais, isso é inviável.

O mesmo se aplica aos painéis solares necessários para gerar essa energia. Precisaríamos de cerca de 70 hectares para produzir 100 MW de potência. Acrescente a isso mais painéis equivalentes a 600 "campos de futebol espaciais" — painéis que também consumiriam energia para ajustar sua orientação visando à eficiência máxima e que precisariam ser substituídos a cada 15 anos devido à degradação causada pela radiação solar.

Em suma, a ideia de "criar parques em toda parte na Terra, como os de Paris", rende um belo slogan para uma caneca de café, mas, logisticamente, está longe de ser uma realidade que possamos considerar implementar tão cedo — especialmente à medida que continuamos a construir data centers que exigem quantidades cada vez maiores de energia.

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