Há 2.200 anos, o campo magnético da Terra entrou em colapso. Agora temos mais detalhes por causa da argila de ânforas de vinho encontradas por arqueólogos

O relógio mais preciso da arqueologia helenística não tinha ponteiros: era a alça de uma ânfora com o nome de um funcionário

Ânforas
Sem comentários Facebook Twitter Flipboard E-mail
victor-bianchin

Victor Bianchin

Redator
victor-bianchin

Victor Bianchin

Redator

Victor Bianchin é jornalista.

2144 publicaciones de Victor Bianchin

Uma equipe de pesquisadores da Universidade de Tel Aviv, da Universidade Ariel e da Universidade da Califórnia em San Diego conseguiu obter informações geomagnéticas a partir de 17 alças de ânforas de vinho da ilha de Rodes e de sete jarras produzidas em Jerusalém, encontradas nos sítios arqueológicos da Cidade de Davi, do Bairro Judeu e do estacionamento Givati.

O que torna essas peças especiais são dois fatores: todas traziam os nomes do oleiro e do supervisor da produção daquele ano. Além disso, a análise revelou um dado surpreendente: entre os anos 206 e 156-155 a.C., o campo magnético da Terra perdeu mais de 30% de sua intensidade.

A explicação científica

Quando a argila é queimada em altas temperaturas, os minerais ricos em ferro presentes nela se alinham de acordo com o campo magnético existente naquele momento. Ao esfriarem, eles permanecem nessa orientação para sempre — ou pelo menos até serem aquecidos acima da temperatura de Curie. Se, posteriormente, essas peças forem aquecidas em laboratório sob condições controladas, é possível recuperar o sinal e medir a intensidade do campo magnético da época em que foram produzidas. Esse procedimento é conhecido como análise de arqueointensidade.

As peças de cerâmica revelam que o campo magnético da Terra enfraqueceu muito mais rapidamente do que indicavam os modelos atuais. Além disso, o magnetismo oferece uma alternativa à datação por radiocarbono para determinar a idade de objetos e estruturas antigas com um grau de precisão que o carbono nem sempre consegue alcançar. Estudos anteriores já apontavam essa possibilidade, mas a nova pesquisa a confirma para o período helenístico.

As peças analisadas são alças estampadas de ânforas produzidas na ilha de Rodes entre os séculos III e I a.C. Durante o período helenístico, essas ânforas circulavam por todo o Mediterrâneo oriental, transportando vinho ou azeite. As ânforas gregas costumavam trazer gravados o nome do oleiro e o do funcionário responsável por supervisionar a produção naquele ano, conhecido como epônimo. Esse costume administrativo transforma as ânforas de Rodes em um instrumento cronológico de precisão extraordinária: é possível datar as peças com uma margem de erro inferior a um ano, algo raramente alcançado na arqueologia.

Por tabela

Indiretamente, essa descoberta também tem implicações para a fortaleza de Acra, uma construção que o rei selêucida Antíoco IV mandou erguer por volta de 167 a.C. para controlar Jerusalém durante o período dos macabeus e cuja localização exata é, há décadas, um dos debates mais intensos da arqueologia na cidade. Em 2015, no sítio arqueológico do estacionamento Givati, uma equipe de arqueólogos encontrou parte de uma rampa defensiva que foi associada à Acra.

O problema é que um dos vasos encontrados nessa estrutura pertence a um tipo de cerâmica que só passou a existir depois de 130 a.C., ou seja, várias décadas após a construção da fortaleza ordenada por Antíoco IV. Se a rampa realmente fizesse parte da Acra original, datada de 167 a.C., o vaso encontrado em seus alicerces deveria ser anterior a essa data, e não posterior. Além disso, sua intensidade magnética corresponde a uma fabricação do fim do século II a.C. O que isso significa? Que essa rampa pode não fazer parte da estrutura original da fortaleza de Acra.

O estudo conclui que uma das jarras encontradas sob uma rampa defensiva no estacionamento Givati é recente demais para ser associada à construção original da fortaleza de Acra. No entanto, esse dado, por si só, não resolve a questão: a rampa pode ter pertencido a uma fase posterior de reforma ou a jarra pode ter sido colocada ali posteriormente.

Além disso, pesquisas anteriores realizadas na região do Levante já indicavam uma queda na intensidade do campo magnético entre 220 e 160 a.C.. Este estudo reforça essa hipótese com um nível de precisão sem precedentes. Ainda assim, uma amostra de apenas 24 recipientes é insuficiente para consolidar uma curva regional da variação do campo magnético. São necessárias mais amostras provenientes de outros sítios arqueológicos.

Imagem: Autoridade de Antiguidades de Israel e Toa Heftiba

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


Inicio