Dr. Qing Li, imunologista chinês, “as árvores liberam substância em sua corrente sanguínea que reduzem o hormônio do estresse”

Estudos sobre Medicina Florestal revelam que respirar o ar das florestas pode reduzir hormônios do estresse e desencadear respostas importantes no sistema imunológico

Mulher Abracando Arvore
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Laura Vieira

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Laura Vieira

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Jornalista recém-formada, com experiência no Tribunal de Justiça, Alerj, jornal O Dia e como redatora em sites sobre pets e gastronomia. Gosta de ler, assistir filmes e séries e já passou boas horas construindo casas no The Sims.

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Abraçar uma árvore pode parecer apenas um gesto simbólico de quem busca mais contato com a natureza. Mas, para a ciência, passar algum tempo em uma floresta pode desencadear sensação de bem-estar e uma série de respostas fisiológicas. Estudos conduzidos pelo imunologista japonês Dr. Qing Li, publicados na revista Environmental Health and Preventive Medicine, mostram que os compostos liberados naturalmente pelas árvores, conhecidos como fitoncidas, estão associados à redução de hormônios do estresse e ao fortalecimento de mecanismos do sistema imunológico. As pesquisas, realizadas ao longo de duas décadas no Japão, deram origem a uma área conhecida como Medicina Florestal, que investiga cientificamente como os ambientes naturais influenciam a saúde humana.

Banho de floresta mostrou efeitos sobre estresse, sistema nervoso e imunidade

O conceito estudado por Qing Li é conhecido no Japão como Shinrin-yoku, uma expressão que pode ser traduzida como "banho de floresta". A prática consiste em permanecer em uma área florestal utilizando conscientemente os cinco sentidos: observar a paisagem, sentir o aroma das árvores, ouvir os sons da natureza, tocar a vegetação e respirar o ar do ambiente.

No entanto, um ponto chamou mais a atenção dos pesquisadores: os efeitos no organismo da respiração do ar florestal. As árvores liberam substâncias voláteis chamadas fitoncidas, compostos produzidos como mecanismo natural de defesa contra fungos, bactérias e insetos. Durante a permanência na floresta, essas moléculas ficam suspensas no ar e podem ser inaladas pelas pessoas.

Nos experimentos conduzidos por Qing Li e sua equipe, voluntários participaram de viagens de três dias em áreas florestais japonesas, com caminhadas leves e períodos de descanso. Antes, durante e após as visitas, os pesquisadores coletaram amostras de sangue e urina para avaliar diversos marcadores fisiológicos. Após o contato com a natureza, os resultados mostraram:

  • Redução dos níveis de cortisol, adrenalina e noradrenalina, hormônios ligados ao estresse;
  • Aumento da atividade do sistema nervoso parassimpático, responsável pelo estado de relaxamento e recuperação do organismo;
  • Diminuição da frequência cardíaca e da pressão arterial em diversos participantes;
  • Melhora em indicadores de humor, com redução de ansiedade, fadiga, tensão e sintomas depressivos em escalas psicológicas utilizadas pelos pesquisadores.

Segundo o artigo de revisão publicado por Qing Li, esses efeitos não parecem ser explicados apenas pela caminhada ou pelo descanso. Em um dos experimentos, a equipe chegou a difir óleos essenciais extraídos de árvores em quartos de hotel e observou alterações semelhantes em alguns marcadores imunológicos, reforçando a hipótese de que os fitoncidas participam desse processo.

No entanto, os pesquisadores destacaram que o ambiente florestal reúne diversos fatores capazes de atuar simultaneamente nesse sentimento, como menor poluição sonora, ar mais limpo, temperaturas mais amenas, menor sobrecarga de estímulos e o efeito psicológico de estar cercado pela natureza.

A floresta faz mais do que acalmar: estudos apontam efeitos sobre imunidade, foco e desempenho mental

homem com seu cão na floresta O "banho de floresta" pode expor o organismo aos fitoncidas, compostos naturais estudados por seus possíveis efeitos sobre o estresse e a imunidade

Um dos resultados mais conhecidos das pesquisas lideradas por Qing Li envolve as chamadas células Natural Killer (NK), um tipo de célula do sistema imunológico que atua na resposta inicial contra vírus e algumas células tumorais. Nos experimentos, a atividade dessas células aumentou após as experiências de banho florestal, acompanhada por níveis mais elevados de proteínas como perforina, granulisina e granzimas, utilizadas pelas células NK para combater agentes invasores. Em parte dos participantes, essas alterações permaneceram detectáveis por pelo menos sete dias e, em alguns marcadores, chegaram a persistir por cerca de um mês após a visita à floresta.

Para verificar se o efeito estava relacionado apenas ao descanso, os pesquisadores também acompanharam voluntários que fizeram uma viagem turística para uma grande cidade japonesa. Nesse grupo, as mesmas mudanças imunológicas não foram observadas, sugerindo que o ambiente florestal desempenhou um papel importante nos resultados.

Os benefícios do contato com a natureza também vêm sendo investigados em outras áreas da ciência. Pesquisas em psicologia ambiental e neuroarquitetura mostram que o ambiente físico pode influenciar funções cognitivas como atenção sustentada, memória de trabalho e capacidade de tomada de decisão. Um estudo publicado na revista Frontiers in Cellular Neuroscience indica que espaços com iluminação natural e boa ventilação estão associados a níveis mais baixos de cortisol, o principal hormônio relacionado ao estresse, e a um melhor desempenho em tarefas que exigem concentração constante.

Outra pesquisa publicada na Scientific Reports verificou que a presença de elementos naturais, inclusive em ambientes internos, como jardins, materiais orgânicos ou representações visuais da natureza, pode estimular a criatividade e favorecer a recuperação mental após atividades cognitivas intensas.

Apesar dos resultados, os próprios autores fazem uma consideração importante. Os estudos identificam associações fisiológicas e cognitivas, mas isso não significa que caminhar entre árvores previna doenças ou substitua tratamentos médicos. Exercício físico, qualidade do ar, menor exposição a estímulos urbanos, redução do estresse e os próprios fitoncidas provavelmente atuam em conjunto para produzir esses efeitos.

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