Cuidado com o que planta: esta árvore exótica ornamental pode impulsionar o surgimento de abelhas invasoras

Duas espécies vindas da Ásia e um mesmo destino: como uma árvore ornamental é o destino certeiro de abelhas invasoras

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Bárbara Castro

Redatora

Invasões biológicas são um desafio global crescente, e a forma como as espécies invasoras chegam a novos territórios varia muito. Algumas se estabelecem porque as mudanças climáticas tornam novas regiões favoráveis, enquanto outras surgem por pura negligência humana. Há também aquelas introduzidas deliberadamente pelo valor ornamental — até que a situação fuja do controle.

Na Espanha, mais de 1.200 espécies invasoras já foram catalogadas. Um caso emblemático é o dos ailantos, árvores usadas para "decorar" cidades que hoje destroem calçadas e redes de esgoto. Esses jardins exóticos e sofisticados costumam abrigar plantas e animais que não pertencem ao ecossistema local. E o alerta agora é ainda maior: pesquisadores acabam de descobrir que eles também viraram o ambiente ideal para a proliferação da abelha-gigante-da-resina (Megachile sculpturalis).

O que está acontecendo

Originária da Ásia, essa abelha traz consigo um marco ecológico preocupante: é a primeira abelha invasora documentada no continente europeu. O caso revela como o planejamento da arborização urbana pode, de forma não intencional, pavimentar a instalação definitiva de espécies exóticas.

Uma equipe de cientistas da Universidade Autônoma de Barcelona constatou que a abelha-gigante-da-resina se alimenta de maneira quase exclusiva do pólen da sófora (ou acácia-do-japão), árvore ornamental nativa da Ásia — principalmente da China e posteriormente levada ao Japão. A planta chegou à Europa no século XVIII e hoje é muito comum nos parques de cidades espanholas, como Barcelona. Como as duas espécies atingem o pico de atividade em pleno verão do Hemisfério Norte, época de florada da árvore, o inseto encontra nos centros urbanos o suprimento perfeito de alimento.

O elo entre a abelha-gigante-da-resina e a sófora gera um evidente efeito bola de neve ecológico: ambas as espécies invasoras se ajudam mutuamente para proliferar. O caso prova que arborizar cidades com plantas exóticas por mera estética traz impactos graves à biodiversidade, catalisando invasões biológicas que resultam, inclusive, em ninhos instalados nos locais mais improváveis.

Quase duas décadas de expansão

Reprodução Distribuição da sófora e a probabilidade de presença da abelha-gigante-da-resina.

A Megachile sculpturalis é nativa da Ásia, originalmente na China, Japão, Coreia e Taiwan. O primeiro relato de sua presença na Europa foi registrado no sudeste da França, em 2008. A partir dali, o inseto começou a se espalhar rapidamente e, em poucos anos, os registros multiplicaram-se por dez, segundo dados do CREAF (Centro de Pesquisa Ecológica e Aplicações Florestais da Catalunha).

Na Espanha regional, ela passou a ser avistada com frequência a partir de 2018. Já o primeiro registro documentado em território insular do país ocorreu nas Ilhas Baleares (em Maiorca), em 2021, onde os pesquisadores observaram diretamente o inseto colhendo pólen tanto da Sophora japonica asiática quanto da Parkinsonia aculeata (uma espécie de origem americana).

Tão determinante quanto o clima

Já havia estudos preliminares na Itália, nas Baleares e um artigo recente na Pensilvânia (EUA) indicando a preferência da espécie pela árvore asiática, mas sempre com dados limitados. O novo trabalho analisou amostras regionais amplas, o que permitiu confirmar com firmeza que a presença da planta é o motor principal da expansão desse polinizador.

A disponibilidade da árvore, porém, não age sozinha. A equipe desenvolveu modelos matemáticos para mensurar a importância da sófora frente ao clima e à geografia, concluindo que a presença da árvore é tão decisiva para a invasão quanto um clima favorável. Para entender a dimensão do problema, apenas na cidade de Barcelona existem cerca de 11 mil exemplares plantados dessa espécie vegetal.

Erradicação quase impossível

O cruzamento dos dados mostra que a oferta de sófora é determinante, e o clima torna-se ainda mais favorável justamente onde a planta já está enraizada. Vale pontuar que outras abelhas invasoras pelo mundo não dependem tão estritamente de uma única fonte floral; portanto, esse cenário não se aplica da mesma forma a todas as invasões. Ainda assim, os cientistas alertam: retirar as árvores agora não impediria necessariamente o avanço de um polinizador que já coloniza o território europeu há quase vinte anos.

Matéria traduzida e adaptada de Xataka*

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