Uma combinação fascinante entre botânica antiga e relatos históricos medievais permitiu que pesquisadores da Universidade de Graduação do Instituto de Ciência e Tecnologia de Okinawa (OIST) identificassem uma poderosa tempestade solar ocorrida há mais de 800 anos. O evento, que atingiu a Terra por volta do ano 1200 d.C., deixou rastros físicos em árvores soterradas no Japão e relatos poéticos de céus brilhando em tons de vermelho em diários de cortesãos da época.
A descoberta foi possível graças à análise ultraprecisa de carbono-14 retido nos anéis de crescimento de árvores asunaro. Quando o Sol emite uma explosão massiva de partículas, evento conhecido como Evento de Prótons Solares (SPE), essas partículas colidem com a atmosfera terrestre e criam carbono-14, que acaba absorvido por organismos vivos. Ao identificar picos desse elemento em anéis específicos, os cientistas conseguem datar com precisão cirúrgica quando o planeta foi bombardeado por radiação espacial.
O mistério do "Céu Vermelho" nos diários medievais
Para saber exatamente onde procurar nas amostras de madeira, a equipe recorreu à literatura. O diário Meigetsuki, escrito pelo poeta japonês Fujiwara no Teika, continha descrições de "luzes vermelhas no céu ao norte de Kyoto" em 1204. Embora os SPEs não criem auroras diretamente, eles costumam ocorrer junto com as mesmas perturbações solares que geram esses fenômenos.
Cruzando os dados da madeira com registros históricos da China e do Japão, os pesquisadores determinaram que a tempestade ocorreu entre o inverno de 1200 e a primavera de 1201. Os dados revelaram que o Sol era muito mais ativo naquela época: enquanto hoje os ciclos solares duram 11 anos, no período medieval eles eram muito mais curtos, durando apenas sete ou oito anos.
Embora o termo "mortal" possa assustar, o risco não é para quem está na superfície da Terra, protegida por nosso campo magnético. O perigo real reside no espaço. Em 1972, uma série de tempestades solares ocorreu entre as missões Apollo 16 e 17; se os astronautas estivessem na Lua naquele momento, poderiam ter recebido doses letais de radiação.
Ao mapear eventos "sub-extremos" (que são menores que os recordes históricos, mas ainda perigosos), os cientistas podem prever melhor o comportamento do Sol e desenvolver tecnologias de blindagem mais eficazes para as naves e trajes espaciais.
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