Cientistas descobrem: o acidente nuclear não é o real motivo de os javalis de Chernobyl serem radioativos

Os testes nucleares e a alimentação desses mamíferos são as causas desse excesso de radiação

Javalis de Chernobyl
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Victor Bianchin

Redator
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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Os javalis são uma das espécies mais radioativas a viver nos arredores de Chernobyl, a usina nuclear ucraniana que teve o fatídico acidente quatro décadas atrás. Mas havia um grande mistério sobre eles: por que sua radioatividade é maior do que a de outras espécies da região?

Em 2023 surgiu uma nova pista, revelada por uma equipe de pesquisadores. A resposta não tem tanto a ver com o acidente nuclear em si, mas com algo que aconteceu muito antes.

Para entender, precisamos falar de um dos isótopos radioativos mais contaminantes: o césio-137. O período de meia-vida desse isótopo (o tempo em que metade dos átomos do material terá se desintegrado) é de pouco mais de 30 anos. Em princípio, a concentração de césio na cadeia trófica deveria se reduzir ainda mais, já que os átomos tendem a se infiltrar no solo ou ser arrastados pela água até os rios.

É por isso que o nível de radioatividade em animais como cervos e corças caiu de forma notável na área. Com os javalis, porém, isso não ocorreu: seus níveis de radiação permaneceram quase constantes, ou seja, a queda nem sequer corresponde àquela que seria esperada pela meia-vida do césio-137. É o “paradoxo do javali selvagem”.

Testes nucleares e trufas radioativas

A resposta parte do césio-135. A equipe que resolveu esse mistério conseguiu isso focando não nos níveis de radiação, mas em sua origem. Eles comprovaram que era esse outro isótopo do césio o responsável por esse fenômeno. O césio-135 tem um período de meia-vida muito mais longo, o que explica por que a redução foi menor.

Isso também torna mais difícil detectar a presença do césio. Como explica a equipe responsável pelo estudo, cada tipo de incidente nuclear tem uma “assinatura” própria. Estima-se que 90% do césio-137 presente na Europa foi liberado pelo acidente de Chernobyl, mas esse não é o caso do césio-135. A origem dele está, em 68%, nos testes nucleares realizados no contexto da Guerra Fria.

A alimentação dos javalis também foi um dos fatores-chave para entender a razão dos níveis de radiação dos animais. Esses javalis se alimentam de um tipo de trufa (Elaphomyces) que cresce no subsolo a profundidades entre 20 e 40 centímetros.

Como mencionamos antes, parte do césio radioativo foi se infiltrando ano após ano no solo da área. A uma taxa de alguns poucos milímetros por ano, o césio (tanto o proveniente dos testes nucleares quanto o do acidente) foi avançando até essas profundidades, contaminando esses fungos, fonte de alimento dos javalis.

De Chernobyl à Baviera

O estudo que esclareceu esse mistério foi realizado analisando uma população de 48 javalis no estado da Baviera, no sul da Alemanha. Os detalhes da análise foram publicados na revista Environmental Science & Technology.

Os resultados do estudo nos levam a pensar que a situação não mudará no curto prazo. Ou seja, é pouco provável que os níveis de radioatividade dos javalis comecem a cair nos próximos anos até se igualarem aos apresentados por outros animais semelhantes, como cervos ou corças.

A maior radiação presente nesses animais faz com que os caçadores não os procurem. Isso implica que as populações desses javalis aumentarão no futuro. Talvez sua expansão pela Europa Central faça com que os níveis de radiação desses animais diminuam geração após geração, mas, pelo que vimos, esse processo ainda pode se prolongar por décadas.

Imagem | Joachim Reddemann / Кирилл Пурин

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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