A neurociência revela o grande segredo do riso: nosso cérebro possui dois circuitos distintos para o riso, e um deles é ancestral

A ciência deixa claro que o riso mais primitivo é o mais divertido

A neurociência revela o grande segredo do riso: nosso cérebro possui dois circuitos distintos para o riso, e um deles é ancestral.
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Fabrício Mainenti

Redator

O riso pode parecer um ato simples e automático, mas, neurologicamente, é um fenômeno extremamente complexo. É tão complexo que manifestamos diferentes tipos de riso; quase todo mundo já percebeu a diferença entre uma crise de riso incontrolável, que nos deixa sem fôlego, e aquela risadinha educada que oferecemos por cortesia.

Agora, a ciência sugere que o riso não depende de um único circuito, mas sim de pelo menos duas redes parcialmente distintas: uma ligada ao riso espontâneo e emocional, e outra ao riso voluntário ou social.

Uma questão de evolução

Esse tem sido o foco de pesquisas interessantes publicadas na revista Trends in Neurosciences, que indicaram a coexistência de um "riso ancestral" — profundamente emocional e diretamente ligado ao de outros primatas — com o "riso humano", que é voluntário e visa nos ajudar a "causar uma boa impressão".

Para chegar a essa conclusão, pesquisadores analisaram dezenas de pacientes, aplicando estimulação elétrica enquanto estavam acordados para observar quais áreas do cérebro eram ativadas no momento em que o riso começava.

Duas redes

Os resultados mais técnicos apontaram para a existência de dois circuitos cerebrais para o riso. A rede do riso espontâneo — a ancestral — é ativada quando ouvimos uma piada genial ou quando fazemos cócegas em alguém. É um processo involuntário e puramente emocional, que aciona regiões cerebrais mais primitivas ligadas aos sistemas de recompensa e emoção, como o núcleo accumbens.

Em contrapartida, o riso que produzimos voluntariamente para nos integrar a uma conversa ou demonstrar empatia ativa um circuito que não depende da emoção, mas sim do controle motor e cognitivo — funções muito mais avançadas na escala filogenética da nossa espécie.

Nas doenças

Essa distinção — já sugerida em revisões clássicas — explica por que certas condições neurológicas podem eliminar a capacidade de rir voluntariamente, mantendo intacto o riso espontâneo, visto que ambos se originam em áreas completamente diferentes do cérebro.

Com nossos ancestrais

Enquanto o riso voluntário parece ser uma ferramenta social sofisticada, desenvolvida pelo Homo sapiens para complementar a linguagem, o riso espontâneo é um eco direto do nosso passado evolutivo.

Para compreender as origens desse riso primordial, um estudo recente publicado na Communications Biology analisou a acústica e o ritmo do riso, comparando sequências em humanos e grandes primatas e revelando um padrão rítmico compartilhado

Assim, quando um chimpanzé ou um bonobo é alvo de cócegas, ele emite vocalizações com um ritmo e um tempo surpreendentemente semelhantes aos do riso humano espontâneo — ou até mesmo aos do riso de bebês.

Sua importância

Essa descoberta sugere uma continuidade evolutiva inegável; o riso não surgiu do nada em nossa espécie, mas emergiu de redes neurais e vocais já presentes em nossos ancestrais hominídeos.

Ao longo de centenas de milhares de anos, à medida que nossos cérebros desenvolviam as áreas motoras e cognitivas necessárias para uma linguagem complexa, nós "nos apropriamos" dessa vocalização emocional para criar um segundo circuito: uma forma de riso controlável, voluntária e conversacional.

Um elo perdido

Descobrir que o riso compartilha um "código de barras" rítmico com os grandes símios — e envolve duas vias cerebrais distintas — é mais do que uma simples curiosidade biológica. Como a Nature News observou ao relatar essas descobertas, compreender a evolução do riso oferece uma janela direta para a evolução do controle vocal.

Afinal, a capacidade de fingir o riso ou produzi-lo voluntariamente no momento preciso de uma conversa exige uma imensa plasticidade cerebral.

É por isso que compreender a transição da respiração ofegante involuntária dos primatas para o riso humano sutil pode ser a chave mestra para desvendar o mistério de como desenvolvemos a linguagem que usamos hoje.

Imagens | OurWhisky Foundation

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