Quase todos nós já estivemos na situação de ter uma tarefa que precisava ser feita, como estudar para uma prova ou entregar um trabalho. Sabemos que é importante e que devemos começar a lidar com isso imediatamente, mas de repente estamos fazendo algo completamente diferente e insignificante, como reorganizar uma gaveta ou assistir a um vídeo no YouTube. Essa ocorrência aparentemente comum é o que chamamos de procrastinação, e estamos entendendo cada vez mais por que a praticamos.
O contexto
Por décadas, a cultura popular nos disse que a procrastinação é um problema de gerenciamento de tempo ou, pior, preguiça. No entanto, a neurociência tem uma mensagem diferente, apontando que a procrastinação não é uma falha de organização, mas sim uma crise de regulação emocional.
O cérebro
Para entender a procrastinação, precisamos primeiro analisar a anatomia do nosso cérebro, que muitas vezes funciona como um vasto campo de batalha dividido em dois lados. De um lado, temos o sistema límbico, uma das partes mais primitivas do cérebro, cuja função é simplesmente nos manter vivos, longe da dor e buscando prazer imediato.
Do outro lado, temos o córtex pré-frontal, a área mais "moderna" do ponto de vista evolutivo, localizada bem na parte frontal da cabeça. É aqui que reside o pensamento racional, o planejamento a longo prazo e a lógica.
O que sabemos
Uma revisão de 2021 já indicava que essas áreas são ativadas quando temos que realizar uma tarefa que gera ansiedade, tédio ou insegurança, como estudar para uma prova. E não é de se admirar, pois o sistema límbico detecta essa situação como uma "ameaça" e automaticamente sequestra o córtex pré-frontal para priorizar o alívio emocional imediato de navegar pelo Instagram em detrimento do benefício a longo prazo de começar a estudar para ser aprovado.
Sabemos mais
Agora, neste mesmo ano, um novo estudo deu mais um passo em direção à compreensão desse sistema cerebral ao identificar um circuito neural específico em primatas que atua como um "freio" para a motivação, conectando duas partes do cérebro: o estriado ventral (EV) e o pálido ventral (PV).
Os pesquisadores descobriram que, quando enfrentamos tarefas associadas ao desconforto ou à possibilidade de fracasso, esse circuito EV-PV é ativado, inibindo a ação, como se fosse um mecanismo extremo de proteção emocional. A descoberta mais surpreendente do estudo é que, ao interromper esse circuito em laboratório, os participantes recuperaram imediatamente a motivação, "soltando o freio" e enfrentando a tarefa difícil.
Não se trata de preguiça
Essa nova linha de pesquisa está alinhada com estudos anteriores que relacionaram a procrastinação ao estresse, ao medo do fracasso e à ansiedade. Assim, ao se deparar com um documento em branco ou uma planilha do Excel muito complexa, a amígdala ativa uma resposta de luta ou fuga. De fato, observou-se que procrastinadores crônicos tendem a apresentar menor conectividade entre a amígdala e o córtex cingulado anterior, o que reduz sua capacidade de filtrar emoções negativas e distrações.
Em resumo, o cérebro procrastina para se proteger do desconforto psicológico que uma tarefa produz.
Abordagem estratégica
Considerando a complexidade de tudo isso, culpar-se ou se autodenominar "preguiçoso" é inútil. Mas é verdade que é necessária uma estratégia para aprimorar nossa percepção de estresse e recompensa. Isso envolve dividir o trabalho em partes menores, então, em vez de tentar "escrever o documento inteiro", optamos por "escrever apenas o título e o primeiro parágrafo em cinco minutos" para enganar a amígdala.
Também é possível bloquear fontes fáceis de dopamina com um sistema de bloqueio no computador ou celular que dificulte o acesso ao Instagram ou YouTube para assistir a vídeos. Dessa forma, se a recompensa imediata exigir esforço, como ir até o cômodo ao lado buscar o celular, o córtex pré-frontal tem tempo para intervir e nos colocar em modo de concentração.
Imagens | Ashkan Forouzani
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