Você talvez já tenha ouvido isso mais de uma vez. Pode até ter acontecido com você. A pessoa "X" quer um animal de estimação, mas sem o compromisso e a carga de trabalho que um cachorro exige; então, opta por um gatinho. Afinal, gatos são animais mais independentes, certo?
Eles seguem seu próprio ritmo, oferecem carinho sem exigir atenção constante e não precisam ser levados à rua ou ao parque várias vezes ao dia — faça chuva, trovoada ou um calor escaldante.
Errado.
Não, eles não são a opção fácil
Noelia Hernández, educadora da Código Felino, ouve há muito tempo essa e outras ideias equivocadas que retratam os gatos como "o animal de estimação ideal para quem não quer ter trabalho". É um grande erro, baseado em clichês que, muitas vezes, levam os tutores a buscar ajuda profissional. Ela já se deparou com casos assim em sua própria atuação.
"Já recebi muitas pessoas admitindo que cometeram o erro de achar que um gato dava menos trabalho do que um cachorro. Mas não é nada disso. É apenas um tipo diferente de trabalho", observa ela.
A questão é que qualidade de vida você deseja proporcionar ao seu companheiro peludo. Você pode não precisar levá-lo para passear três ou quatro vezes ao dia, mas, se quiser um gato saudável, não pode simplesmente oferecer comida, água e uma caixa de areia, ignorando suas outras necessidades.
Que necessidades?
Brincar com eles e oferecer estímulo mental, por exemplo. "Vejo muitos tutores dizendo que preferem gatos a cachorros porque dão menos trabalho, e isso é um grande equívoco. Qualquer ser vivo exige esforço. O grau varia — não é melhor nem pior —, mas exige muito sacrifício", afirma a especialista da Código Felino. Não se trata de pertencer ao "Time Cachorro" ou ao "Time Gato", mas de entender o que realmente envolve ter um animal de estimação.
Mais especificamente, Hernández destaca três pontos fundamentais que qualquer pessoa que pense em adotar um gato deve ter em mente: nossa casa precisa estar "bem adaptada", precisamos entender as "necessidades reais" do felino e devemos proporcionar um ambiente enriquecido.
"Compreender suas verdadeiras necessidades e atendê-las plenamente exige tanto trabalho quanto cuidar de um cachorro", insiste ela. Ela não é a única a alertar sobre equívocos comuns em relação aos gatos.
Embora muitas vezes os vejamos como criaturas distantes, cada gato tem sua própria personalidade; geralmente, são animais sociais e afetuosos — e, acima de tudo, neofóbicos, o que significa que não lidam bem com mudanças. Ignorar esses fatores pode levar o gato a um estado de depressão ou estresse sem que percebamos, o que traz consequências tanto para o seu temperamento quanto para a sua saúde física.
Cada gato é único
Se as pessoas costumam observar as características da raça antes de comprar um cachorro, por que seria diferente com um gato? Nem todas as raças são iguais — e não apenas em termos de aparência. "Alguns são mais agitados e ativos, assim como acontece com os cães", observa Hernández.
No entanto, não é preciso analisar a raça para entender a personalidade de um animal; existem outros dois fatores que devemos considerar com atenção se quisermos compreendê-los.
"Para mim, uma coisa é fundamental: se o gato passou tempo suficiente com a mãe e os irmãos. Se ele conseguiu se socializar adequadamente com eles, será um animal muito mais equilibrado. O mesmo vale se adotarmos dois gatos da mesma ninhada", comenta a especialista da Código Felino.
Outro fator crucial para o temperamento de um gato é a sua idade.
"Se você adotar um gato jovem, ele terá mais energia. Existem gatos adultos em abrigos à espera de um lar cujo temperamento já é conhecido. Como já estão totalmente desenvolvidos, você sabe exatamente como eles são e se atendem às suas necessidades específicas — como quanto tempo você pode dedicar a eles ou se você tem crianças ou outros animais de estimação.
Com gatos adultos, geralmente conseguimos avaliar o temperamento com muito mais precisão do que com filhotes".
Sua casa está preparada para isso?
Essa é a pergunta de um milhão de dólares. Conviver com um gato exige mais do que apenas a mentalidade certa e a compreensão das responsabilidades envolvidas; sua casa também precisa estar preparada. E isso vai além de simplesmente comprar uma cama confortável, brinquedos, potes de comida e água e uma caixa de areia.
"Você precisa realmente entender o animal que está trazendo para casa — a natureza dele. Gatos, por exemplo, são pequenas máquinas de caça". Esse não é um detalhe irrelevante. Significa que seu companheiro felino não hesitará em explorar toda a casa, subir em locais que você provavelmente nem imaginou ou ficar de vigia na janela para observar e perseguir pássaros que passam.
"Gatos paraquedistas"
Para evitar que isso se transforme em uma tragédia, é altamente recomendável tomar precauções, como instalar telas de proteção nas janelas para impedir quedas.
"Quando se trata de gatos, não aprovo uma adoção a menos que haja telas. Esse é um requisito fundamental", admite Noelia, referindo-se ao que os especialistas chamam de "Síndrome do Arranha-Céu" (ou "síndrome do gato paraquedista"): o animal sobe em uma janela alta ou sacada e acaba despencando — seja ao tentar capturar um pássaro ou uma mosca, ao escorregar ou simplesmente ao adormecer e perder o equilíbrio.
"Recebemos relatos todos os dias"
Pode parecer estranho — afinal, o estereótipo é que gatos são criaturas ágeis com sete vidas, certo? — mas Noelia alerta que isso acontece com muito mais frequência do que as pessoas imaginam. Daí a importância de instalar telas nas janelas.
"Acidentes ocorrem diariamente, e todos os grupos de resgate recebem relatos todos os dias. E, claro, se alguém não está disposto a gastar dinheiro com telas, provavelmente também não terá recursos para levar o gato a um ortopedista veterinário", lamenta ela.
"Já não é apenas uma questão financeira; é uma questão de ética e respeito pelo animal. Eles sofrem terrivelmente quando caem. Isso sem contar a possibilidade de não conseguir resgatá-los; alguns gatos fogem, escondem-se em carros com as patas quebradas e acabam sofrendo em agonia por dias até morrerem — em algum lugar desconhecido", insiste ela.
Noelia também incentiva as pessoas a prepararem uma "zona de acolhimento" antes de levar um gato para casa — um espaço aconchegante e reservado onde o animal tenha tudo o que precisa e possa se sentir calmo e tranquilo. O objetivo é que o gato encontre um local onde se sinta seguro e, a partir daí, comece a explorar gradualmente sua nova casa.
Saber brincar
Se você vai se tornar tutor de um gato, há outro detalhe a considerar: como brincar com ele. Frequentemente usamos varinhas com brinquedos na ponta, penas, cordões e outros itens para cansá-los ao final do dia, deixando-os exaustos antes de irmos dormir.
O problema é que, embora isso possa fazer sentido sob a lógica humana, nem sempre faz sentido da perspectiva do gato. Tudo depende de como estruturamos a brincadeira. O segredo, insiste Noelia, está na "sequência".
"Existe a fase de espreita, quando o corpo começa a liberar uma onda de hormônios — como a adrenalina — para prepará-los para a perseguição. Depois vem a segunda fase, em que eles brincam com a varinha e os níveis hormonais disparam. A questão é que, se nunca deixarmos a sequência se completar — se não chegarmos ao ponto de capturar e consumir a 'presa' —, não fechamos o ciclo. Acabamos apenas deixando o gato constantemente agitado".
Então, como isso deve ser feito?
Completando o processo. Isso significa permitir que nosso companheiro peludo termine a brincadeira e capture sua "presa".
"Deixe-os vencer e, em seguida, encerre a atividade com uma brincadeira ou oferecendo um petisco junto com os brinquedos. Também podemos dar o petisco diretamente a eles. O gato precisa entender que o ciclo de caça se encerrou; isso permite que ele se acalme, faça sua higiene e vá dormir. Dessa forma, teremos um gato mais saudável".
Imagens | Andrew S. (Unsplash), Lars Van Poucke (Unsplash) e Hans Ott (Usnplash)
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