No planalto de Castela (Espanha), nos anos 1970, o inverno era enfrentado com paciência e com papelão. Os trajetos curtos, o motor frio e um sistema de aquecimento que demorava uma eternidade para começar a soprar ar quente levaram toda uma geração de motoristas a recorrer a uma solução caseira.
Um pedaço de papelão colocado na dianteira, em frente à grade do radiador, preso com dois elásticos ou encaixado entre as aletas, bloqueava parcialmente a passagem de ar e fazia o motor aquecer mais rapidamente. Funcionava e, por isso, o hábito foi passando de pais para filhos.
Forçando o aquecimento do motor
Com um bloco de ferro fundido, um termostato mecânico de abertura tardia e sem qualquer gerenciamento eletrônico, o motor demorava para atingir a temperatura ideal de funcionamento. Qualquer ajuda, por mais rudimentar que fosse, era bem-vinda. O truque consistia em restringir o fluxo de ar frio, acelerando o aquecimento do motor sem apresentar grandes riscos.
Esse contexto desapareceu por completo. Os motores atuais trabalham com termostatos eletrônicos, gerenciados pela central eletrônica de acordo com a carga do motor, a temperatura ambiente e o regime de funcionamento.
O sistema já decide quando e quanto abrir a passagem do líquido de arrefecimento para atingir a temperatura ideal no menor tempo possível, sem intervenção humana e sem qualquer margem para "melhorias" artesanais.
Hoje, cobrir a grade do radiador — ou entrada de ar — não acelera esse processo, embora algumas pessoas ainda recomendem esse truque. O que isso faz é eliminar a margem de segurança térmica que o fabricante calculou para o pior cenário possível, como uma viagem pela rodovia no verão ou um congestionamento com o ar-condicionado funcionando na potência máxima. Em um trajeto curto no inverno, isso pode passar despercebido. O problema aparece quando esse mesmo carro, com o papelão esquecido no lugar, entra em uma via expressa.
Nesse momento, o motor passa a exigir um fluxo de ar que já não recebe. A temperatura sobe acima da faixa de funcionamento do termostato, a central eletrônica entra em modo de proteção e, se o alerta chegar tarde demais, o resultado é um superaquecimento de verdade. No pior dos casos, a junta do cabeçote cede antes de qualquer outro componente e sua substituição em um motor moderno exige a desmontagem do cabeçote e mão de obra especializada, gerando uma conta muito mais alta do que a de uma revisão de rotina.
Os sensores de temperatura, projetados para operar dentro de uma faixa estreita e estável, também não toleram esse tipo de uso prolongado. Ciclos repetidos de calor excessivo comprometem sua precisão e acabam gerando códigos de falha que antes não existiam, aumentando ainda mais o custo do diagnóstico.
O papelão foi uma solução inteligente para um problema que já não existe. Os mecânicos de hoje sabem disso muito bem: quando veem a grade do radiador coberta em um carro com menos de 15 anos de uso, não sorriem com nostalgia.
Imagens | Kruger Construction
Este texto foi traduzido/adaptado do site Motorpasión.
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