Nem mesmo um radar de velocidade conseguiu fazer Bill Gates reduzir o ritmo; tampouco o Mercedes-Benz a diesel surrado que ele comprou para dirigir mais devagar

  • Seymour Rubinstein foi à Microsoft para discutir o lançamento do Word, mas a reunião acabou indo parar nos tribunais;

  • Bill Gates estava acumulando multas por excesso de velocidade, e seu rival lhe deu o conselho que o salvou de perder a carteira de motorista

Nem mesmo um radar de velocidade conseguiu fazer Bill Gates reduzir o ritmo; tampouco o Mercedes-Benz a diesel surrado que ele comprou para dirigir mais devagar
Sem comentários Facebook Twitter Flipboard E-mail
fabricio-mainenti

Fabrício Mainenti

Redator

No final de 1982, Seymour Rubinstein — fundador da empresa que desfrutava de enorme sucesso com seu processador de textos WordStar — chegou pontualmente aos escritórios da Microsoft, para onde Bill Gates o havia convocado a fim de discutir o lançamento iminente do Microsoft Word.

O empresário esperava tratar de negócios com Gates; ambos se conheciam há anos e compartilhavam uma amizade genuína, apesar de suas empresas serem rivais.

O que Rubinstein não esperava era que a reunião acabasse nos tribunais. Naquela manhã, o local do encontro mudou inesperadamente, e o empresário acabou ajudando seu rival a salvar sua carteira de motorista.

Gates diante da lei

Esse episódio curioso foi relatado no livro Hard Drive: Bill Gates and the Making of the Microsoft Empire. Rubinstein era o fundador da MicroPro, a empresa responsável pelo WordStar — o processador de textos dominante da época. Enquanto isso, a Microsoft preparava sua entrada no mercado com o Word, cujo lançamento para MS-DOS estava previsto para setembro de 1983.

Gates tinha um problema sério com excesso de velocidade. Quando Rubinstein chegou esperando discutir contratos, Gates revelou a novidade: ele precisava comparecer a uma audiência no tribunal de trânsito de Seattle naquela mesma manhã. Gates havia acumulado tantas multas por excesso de velocidade em seu Porsche que estava prestes a perder a carteira de motorista. Segundo seus biógrafos, ele poderia até acabar na prisão por causa disso.

Seu rival o salvou de si mesmo

Em sua autobiografia, Source Code: My Beginnings, o próprio Gates admitiu que, às vezes, agia como um "sabichão", tentando refutar argumentos que considerava irracionais. O jovem milionário pretendia contestar uma multa no tribunal — uma autuação por excesso de velocidade e por portar um detector de radar no carro.

Gates planejava basear sua defesa em levar um argumento técnico ao limite: ele raciocinava que possuir um detector de radar era legal, portanto, não havia crime algum.

Rubinstein sabia que aquele plano não colaria com um juiz. Ele explicou a situação sem rodeios:

"Você pode até estar no seu direito de ter um detector de radar no seu Porsche veloz. Mas o fato é que eles não vão gostar disso, porque vão achar que o principal motivo para você tê-lo é escapar da fiscalização. O melhor a fazer é dizer que vai jogar o detector fora, que lamenta sinceramente o que fez e que não vai mais exceder a velocidade. Caso contrário, eles vão pegar pesado com você", alertou seu rival — e, no entanto, amigo.

Gates ouviu

Felizmente para o fundador da Microsoft, ele acatou o conselho. Pediu desculpas ao tribunal, prometeu se livrar do detector de radar e comprometeu-se a parar de correr. Saiu do tribunal apenas com uma multa.

A ironia da história é que a pessoa que o salvou de perder a carteira de motorista era, na época, uma das maiores rivais da Microsoft. A MicroPro, empresa de Rubinstein, detinha 23% do mercado de processadores de texto em 1984 — justamente o segmento que o Microsoft Word tentava conquistar à custa dela.

Gates tinha o pé pesado

Com a carteira de motorista a salvo, ele abordou o problema do excesso de velocidade (ou melhor, o problema das multas) sob um ângulo diferente. Se não conseguia resistir à vontade de acelerar fundo o motor de seu carro esportivo, a melhor solução era eliminar esse fator da equação. Ele comprou um Mercedes-Benz a diesel, marrom e lento — um modelo sem rádio.

Como explicou aos seus biógrafos no livro, o veículo era "um bom teste de disciplina mental", justamente por ter uma aceleração lenta. Ele também apreciava o fato de o carro "não ter rádio para distrair seus pensamentos" enquanto dirigia. A experiência parecia boa no papel. Na prática, foi um fracasso.

Uma velocidade que ninguém conseguia conter totalmente

Em 1986, a revista Fortune noticiou que Gates continuava acumulando multas, mesmo com o carro mais lento do mercado. O motor do Mercedes-Benz surrado — que tentara frear a necessidade de velocidade de Gates — acabou fundindo porque ele simplesmente esqueceu de colocar óleo e o motor queimou.

Esse incidente mecânico virou assunto de conversa e motivo de brincadeiras entre seus colegas de turma no reencontro de dez anos de formatura do ensino médio.

Assim, sem hesitar, Gates voltou para seu Porsche 911 Turbo azul-turquesa, com motor de 300 cavalos... e para o hábito de correr.

Imagem de capa | Unsplash (Matthew Woinarowicz); Flickr (World Economic Forum)

Inicio