Dizem que a experiência é a melhor professora e, por isso, quando se trata de ter uma visão para o futuro no campo tecnológico, poucas vozes têm o peso da de Bill Gates. Afinal, ele foi uma das figuras pioneiras na revolução que trouxe o computador pessoal para as nossas vidas.
O cofundador da Microsoft concedeu uma entrevista ao Australian Financial Review na qual compartilhou sua visão sobre o impacto da IA no emprego e alertou sobre algo que já está sendo debatido em alguns círculos políticos e tecnológicos: se a IA e a robótica reduzirem a necessidade de mão de obra, como será garantido o sustento daqueles que perderem seus empregos?
Tributação do futuro: robôs que pagam impostos
O bilionário expressa uma preocupação que outros bilionários da tecnologia, como Elon Musk e Sam Altman, já manifestaram em diversas ocasiões. Como Gates explicou em sua entrevista, a chegada da IA e da robótica à produção industrial terá um impacto direto em milhões de trabalhadores das classes média e baixa, que provavelmente perderão seus empregos sem a opção de encontrar um dos novos empregos criados para substituí-los.
Como Gates explicou: "Ainda não chegamos ao ponto em que seja necessário mudar completamente as estruturas tributárias, mas talvez cheguemos dentro de cinco anos." O empresário sugere que a solução poderia envolver "transferir a carga tributária do trabalho, pelo menos dos trabalhadores de baixa e média renda, para o capital, ou especificamente para a tributação de robôs ou inteligência artificial".
A proposta do bilionário é que, se um robô ou algoritmo substituir uma pessoa, essa máquina contribua financeiramente, substituindo também o funcionário em suas obrigações tributárias. Gates não está pedindo que a inovação seja sufocada, mas sim que os benefícios da automação não permaneçam exclusivamente nas mãos daqueles que detêm a tecnologia, e sim que os benefícios desse avanço sejam distribuídos por toda a sociedade. Ele insiste que o debate deve ocorrer agora, antes que a substituição de trabalhadores se torne irreversível.
Na iminência de uma transformação inevitável
O fundador da Microsoft reconhece que o foco atual está na produtividade oferecida pela IA e pelos robôs, mas ressalta que sua verdadeira preocupação é como os governos irão gerenciar a substituição de trabalhadores humanos em seus empregos. Não se trata de se isso acontecerá (algo que o bilionário considera certo), mas quando e com que rapidez.
O Fundo Monetário Internacional já alertou que até 40% dos empregos globais têm algum grau de exposição à IA, com um impacto particular sobre os trabalhadores da classe média e aqueles em cargos administrativos, que são muito mais suscetíveis à automação pela IA. Gates argumenta que os governos devem começar a elaborar políticas fiscais adaptadas a uma economia onde uma porcentagem crescente do trabalho não será realizada por um funcionário remunerado, mas sim por sistemas automatizados.
Maioria das empresas de IA irá fracassar
Em seu discurso, o bilionário da tecnologia também aproveitou a oportunidade para analisar o cenário atual das empresas de tecnologia que participam da corrida da IA, e o fez com um alerta sério: "Se você escolheu a empresa certa, como Microsoft, Google ou Apple, terá se saído muito bem. Mas a maioria das empresas de IA irá fracassar. É difícil para um investidor não técnico distinguir quais prosperarão." O empresário aconselha a não se deixar influenciar por avaliações inflacionadas e recomenda investir em empresas consolidadas.
Este alerta surge num momento de investimento maciço em projetos de IA, com as ações das empresas disparando e a capitalização de mercado dessas companhias aumentando vertiginosamente mesmo antes de demonstrarem que seus produtos são realmente competitivos. Tal como aconteceu com a bolha da internet no final da década de 1990, quando a poeira baixar, apenas alguns poucos atores permanecerão no mercado.
Competição global e o risco de monopólio
Além do impacto da IA no emprego, Gates alertou sobre a competição geopolítica no desenvolvimento dessa tecnologia, nessa espécie de corrida espacial que estamos vivenciando. "O que estamos vendo agora é uma competição acirrada." A China, por exemplo, oferece modelos de IA gratuitamente, o que pressiona outras empresas a praticarem preços muito baixos.
"A China oferece modelos gratuitos, e as outras empresas oferecem preços muito, muito baixos. Não queremos que um único país ou uma única empresa seja o único bom em IA. Mas não vejo as coisas caminhando nessa direção, pelo menos não por enquanto", afirmou o bilionário sobre a corrida tecnológica em IA travada entre os EUA e a China.
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