O único mar do mundo que não toca em terra: não tem costa em lugar nenhum

Delimitado por correntes oceânicas, o Mar dos Sargaços abriga ecossistemas importantes e teve mudanças na temperatura, na acidez e nos níveis de oxigênio identificadas após 40 anos de medições

Encontro De Correntes
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Laura Vieira

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Laura Vieira

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Jornalista recém-formada, com experiência no Tribunal de Justiça, Alerj, jornal O Dia e como redatora em sites sobre pets e gastronomia. Gosta de ler, assistir filmes e séries e já passou boas horas construindo casas no The Sims.

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O Mar dos Sargaços, no Atlântico Norte, desafia uma característica comum à maioria dos mares: ele não tem litoral nem é cercado por continentes ou ilhas. Seus limites são definidos por quatro grandes correntes oceânicas, que formam um sistema de circulação ao redor de suas águas. A região também possui extensos aglomerados de algas flutuantes, importantes para a sobrevivência de diferentes espécies marinhas. Mas essa combinação de características únicas não impede que o mar sofra os efeitos das mudanças climáticas. Um estudo publicado na revista Frontiers in Marine Science analisou quatro décadas de medições e identificou águas mais quentes, mais ácidas e com menos oxigênio.

O Mar dos Sargaços tem fronteiras feitas de correntes oceânicas, não de terra

Em um mapa, o Mar dos Sargaços pode parecer apenas mais uma região do Atlântico Norte. A diferença está na maneira como seus limites são estabelecidos: ao invés de costas e ilhas, são as correntes oceânicas que delimitam essa área, formando um enorme giro de água. Quatro correntes compõem esse sistema. A Corrente do Golfo marca o limite oeste, enquanto a Corrente do Atlântico Norte fica ao norte. A leste, está a Corrente das Canárias, e, ao sul, a Corrente Equatorial do Atlântico Norte. Como essas correntes variam conforme as condições do oceano, os limites do mar também podem mudar ao longo do ano.

É essa dinâmica que faz do Mar dos Sargaços uma exceção geográfica. Ele não é uma extensão do oceano parcialmente cercada por terra, como acontece com muitos outros mares, mas uma região definida pelo movimento contínuo das águas do Atlântico. Seu nome vem de uma característica ainda mais visível: a presença de sargaços, algas marrons que flutuam livremente na superfície. Diferentemente de muitas algas marinhas, que ficam presas ao fundo ou a outras estruturas, esses organismos conseguem viver em mar aberto.

Os aglomerados de sargaços também desempenham um papel importante no ecossistema. Eles oferecem abrigo e alimento para diferentes animais e servem como área de desenvolvimento para filhotes de tartarugas marinhas. Enguias, tubarões, marlins-brancos e golfinhos também estão entre os animais associados à região.

O Mar dos Sargaços está mais quente, mais ácido e com menos oxigênio

Apesar da geografia singular, o Mar dos Sargaços não está isolado das transformações que atingem os oceanos. Um estudo conduzido por Nicholas Bates e Rodney Johnson, da Universidade Estadual do Arizona, analisou dados coletados entre 1983 e 2023 em duas estações de pesquisa próximas às Bermudas. Os resultados foram publicados na revista Frontiers in Marine Science.

Uma das estações fica a cerca de 25 quilômetros a sudeste das Bermudas; a outra está aproximadamente 80 quilômetros na mesma direção. Ao comparar as medições feitas ao longo de 40 anos, os pesquisadores identificaram mudanças importantes na composição e nas condições da água. A temperatura da superfície aumentou cerca de 0,97 °C, enquanto a quantidade de oxigênio dissolvido diminuiu aproximadamente 6%. O pH também caiu em cerca de 0,1 unidade, uma alteração que corresponde a um aumento de aproximadamente 30% na concentração de íons de hidrogênio, sinal de que a água ficou mais ácida.

O estudo também identificou um aumento de aproximadamente 25% na pressão parcial de dióxido de carbono dissolvido na água. Ao mesmo tempo, diminuiu a saturação de calcita e aragonita, formas minerais de carbonato de cálcio usadas por diversos organismos marinhos para formar conchas e estruturas esqueléticas. Essas mudanças ajudam a explicar por que o aquecimento e a acidificação dos oceanos preocupam os pesquisadores. À medida que a água absorve dióxido de carbono, sua química se altera, o que pode dificultar a formação de estruturas calcárias por alguns organismos. 

Embora não tenha fronteiras terrestres, o Mar dos Sargaços também registra os efeitos das mudanças nas condições dos oceanos. As quatro décadas de medições mostram que o aquecimento e a acidificação alteraram a temperatura e a composição química de suas águas, acompanhados pela redução do oxigênio dissolvido.

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