Tudo indica que estamos comendo vespas no figo sem saber: ciência revela o que acontece com a carcaça do inseto que se instala no fruto

Em algumas espécies, a vespa entra no figo para polinizar as flores e pode morrer no interior da estrutura, onde seu corpo é decomposto

Figo
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Natália P. Martins

Redatora
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Natália P. Martins

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A relação entre figos e pequenas vespas é uma das mais curiosas da natureza. Em algumas espécies do figo, o inseto entra no interior da estrutura que dará origem ao fruto para polinizar as flores escondidas e pode acabar morrendo ali. 

Flores do figo ficam escondidas

O que chamamos de figo não é exatamente um fruto simples. A parte carnosa se desenvolve a partir de uma estrutura chamada sicônio, uma espécie de recipiente fechado em cujo interior ficam centenas de pequenas flores.

Por estarem escondidas, essas flores precisam de um mecanismo especial de polinização. É aí que entra a relação entre algumas figueiras e as chamadas vespas-do-figo, insetos minúsculos que evoluíram para entrar nessa estrutura por uma pequena abertura na extremidade, conhecida como ostíolo.

No caso do figo comum (Ficus carica), uma das espécies associadas a essa relação é a Blastophaga psenes. A fêmea entra no sicônio carregando pólen de outro figo e, ao circular pelo interior, pode transferi-lo para as flores.

Apesar da consequência positiva para a polinização, a entrada pode ser fatal para o inseto. O espaço é tão estreito que a vespa pode perder as asas e sofrer danos no corpo durante a passagem.

Nem toda vespa morre dentro do figo

Em determinadas estruturas, chamadas caprífigos, as flores femininas possuem pistilos suficientemente curtos para que a vespa consiga depositar seus ovos. A nova geração se desenvolve no interior dessas estruturas, e os machos nascem sem asas, enquanto as fêmeas posteriormente deixam o figo carregando pólen.

Já nas variedades de figo cultivadas para consumo, as flores podem apresentar pistilos mais longos, que impedem a vespa de alcançar o local onde deveria colocar seus ovos. Nesse caso, o inseto pode conseguir polinizar as flores, mas não reproduzir dentro delas.

E o que acontece com a vespa morta?

Se a vespa morrer dentro do sicônio, seu corpo passa por processos naturais de decomposição. Os tecidos vegetais do figo contêm enzimas, entre elas a ficina, que possui atividade proteolítica — ou seja, é capaz de quebrar proteínas.

Isso contribui para a degradação de matéria orgânica no interior da estrutura. Além disso, nem todo figo precisa de uma vespa para amadurecer. Muitas variedades cultivadas conseguem desenvolver seus frutos sem polinização, em um processo conhecido como partenocarpia.

Por isso, comer um figo comprado no mercado ou colhido em um jardim não significa necessariamente estar consumindo restos de um inseto.

Nem todo figo consumido depende da vespa

A associação entre figueiras e vespas é bastante específica e varia de acordo com a espécie da planta e a variedade cultivada.

Na Hungria, por exemplo, a presença da vespa-do-figo foi registrada em Pécs em 2008, junto aos figos-alcaparra necessários para a reprodução do inseto. Ainda assim, variedades do tipo Adriático, comuns no cultivo local, conseguem produzir figos sem polinização.

Assim, não existe uma regra de que todo figo contém ou já conteve uma vespa. A relação é real e biologicamente importante, mas depende da variedade da figueira e do ciclo reprodutivo envolvido.


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