Em 2018, a Costa Rica usou polpa de café para cobrir uma área degradada. Dois anos depois, a paisagem mudou completamente

Cientistas descobrem até que ponto uma paisagem pode mudar quando se elimina o obstáculo que a impedia de se recuperar

Polpa de café
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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O ano era 2018. Dois pesquisadores decidiram fazer algo pouco intuitivo em um antigo pasto para criação de gado no sul da Costa Rica: cobri-lo com cerca de 30 caminhões carregados de polpa de café. Não plantaram milhares de árvores nem revolveram o terreno com máquinas. Simplesmente espalharam sobre uma área degradada uma camada de aproximadamente meio metro daquele resíduo úmido e malcheiroso da indústria cafeeira, enquanto deixavam outra área contígua exatamente como estava.

Dois anos depois, a diferença era difícil de acreditar.

O problema estava na grama. Ao que parece, o terreno havia sido explorado durante anos para cultivar café e alimentar o gado antes de ser abandonado à própria sorte, mas deixar de utilizá-lo não significou que a floresta tropical retornaria. O local havia ficado dominado por gramíneas invasoras, especialmente uma espécie africana utilizada como pastagem capaz de atingir cerca de cinco metros de altura.

Assim, sem animais para mantê-la sob controle, essa espécie formava uma barreira extraordinariamente eficaz contra a regeneração, competindo por luz e nutrientes e impedindo que as sementes de árvores nativas conseguissem se estabelecer. Em outras palavras, a floresta degradada poderia precisar de décadas para recuperar o espaço por conta própria.

A polpa tinha uma surpresa

O ponto central do experimento não consistia simplesmente em jogar adubo. Os ecólogos Rebecca Cole e Rakan Zahawi, pesquisadores ligados à Universidade do Havaí em Mānoa, espalharam uma camada extraordinariamente espessa de polpa durante a estação seca. Ao se decompor, aquela massa rica em carboidratos e proteínas gerou calor e deixou as gramíneas enterradas sem luz nem ar: segundo Zahawi, as raízes e os rizomas acabaram praticamente "cozinhando" sob ela.

Cafe1 A paisagem antes da chegada da polpa de café

Depois, ocorreu a segunda parte do processo. Os restos das gramíneas se misturaram à polpa em decomposição e o solo aumentou seu conteúdo de carbono, nitrogênio e fósforo, criando condições radicalmente diferentes para as plantas que chegassem depois.

A natureza fez o resto. Uma vez eliminada a barreira da grama invasora, os pesquisadores não precisaram plantar a nova floresta árvore por árvore. O vento e os animais levaram sementes da vegetação próxima, enquanto insetos e aves começaram a frequentar o terreno.

Cafe2 A paisagem durante o processo com o café

Ao fim de dois anos, eles não podiam acreditar no que viam. A densidade de caules lenhosos era cerca de 20 vezes maior do que no terreno de controle, a área basal lenhosa era cerca de 30 vezes superior e a altura média do dossel havia quadruplicado. Algumas árvores jovens já chegavam a cerca de 4,5 metros. Cole havia pensado inicialmente que o experimento talvez produzisse apenas uma área de grama um pouco mais verde, mas o que encontrou foram os primeiros passos de uma nova floresta tropical.

Cafe3 A paisagem dois anos depois. À esquerda o terreno com o café, à direita o terreno sem tratamento onde permaneceram as gramíneas invasoras
Cafe5 Imagem aérea que mostra a área onde foi colocada a polpa de café (esquerda) e o terreno de controle (direita) após dois anos

Não basta cobrir tudo de café

A ideia tem ainda uma segunda parte: a matéria utilizada para conseguir isso era um problema em si mesma. O grão que termina em uma xícara é a semente do fruto do café e, durante seu processamento, é preciso remover a casca, a polpa e outras partes do fruto. Até aproximadamente metade do peso colhido pode acabar como subproduto nas unidades de processamento, onde gerenciá-lo e compostá-lo custa dinheiro.

Os pesquisadores obtiveram a polpa gratuitamente e praticamente seu principal gasto consistiu em contratar os caminhões para transportá-la. Transformar um resíduo agrícola abundante em uma ferramenta para recuperar terras degradadas criava, assim, uma espécie de troca perfeita: menos resíduos para os produtores e uma regeneração potencialmente muito mais rápida para a floresta.

Sem dúvida, o resultado foi espetacular, mas os próprios pesquisadores insistem que o experimento, embora surpreendente, é pequeno e não demonstra que a receita possa ser simplesmente repetida em qualquer lugar. Um acúmulo semelhante de polpa cheira mal, atrai insetos e contém grandes quantidades de substâncias que podem contaminar rios e lagos se chegarem à água. Não apenas isso, a aplicação também precisa ser feita em terrenos adequados e durante uma estação seca que permita que a camada atue sobre as gramíneas.

Na verdade, em outros ecossistemas, a técnica poderia até favorecer plantas invasoras em vez de espécies nativas. Talvez por isso, o extraordinário do experimento na Costa Rica não tenha sido tanto descobrir um fertilizante milagroso, mas comprovar até que ponto uma paisagem pode mudar quando se elimina o obstáculo que a impedia de se recuperar: em 2018, despejaram 30 caminhões de resíduos de café sobre um pasto degradado e, apenas dois anos depois, aquele terreno aberto estava coberto em mais de 80% pelas copas de uma floresta que havia começado a se reconstruir praticamente sozinha.

Na parcela sem café, a cobertura mal chegava a 20%.

Imagem | Rebecca Cole

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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