Assim como em Jurassic Park, estes cientistas reviveram uma espécie extinta, mas com um porém

Ao manipular o genoma de lobos modernos, pesquisadores trouxeram de volta características físicas do mítico lobo-terrível

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Bárbara Castro

Redatora

O livro de Michael Crichton e o clássico filme de Steven Spielberg nunca pareceram tão próximos da realidade. Contudo, diferentemente dos dinossauros de Jurassic Park, a ressurreição de espécies extintas não acontece em um passe de mágica nem reconstituindo 100% de um DNA fóssil. Recorrendo a ferramentas modernas de edição genética, a empresa norte-americana Colossal Biosciences alcançou o feito de inserir sequências de DNA de um predador extinto há milênios no genoma de animais vivos.

Um experimento fora do comum

A iniciativa liderada pela Colossal Biosciences envolve dois avanços fundamentais. De um lado, a equipe celebrou em 2025 o nascimento de três filhotes batizados de Romulus, Remus e Khaleesi. Graças a 15 modificações direcionadas em 14 genes com a tecnologia CRISPR, somadas a cinco ajustes derivados do lobo-cinzento moderno, esses animais estão desenvolvendo características físicas típicas do antigo lobo-terrível (Aenocyon dirus). Os espécimes já exibem pelagem branca, porte imponente, superando os 54 quilos, mais de 1,20 metro de comprimento, musculatura reforçada e mandíbulas mais largas com dentes maciços.

Em paralelo, a companhia aplicou as mesmas tecnologias na clonagem de quatro indivíduos do lobo-vermelho (Canis rufus), espécie hoje criticamente ameaçada de extinção. Ao incorporar o chamado "DNA fantasma", identificado em populações de coiotes da Costa do Golfo, os pesquisadores conseguiram devolver uma diversidade genética vital ao reduzido conjunto populacional dessa espécie em risco.

Como os cientistas reconstituíram o DNA do lobo-terrível?

© Colossal Biosciences

Para conseguir mapear o material genético de uma espécie extinta, os pesquisadores recorreram a dois fósseis: um dente de 13 mil anos encontrado no estado de Ohio e um crânio de 58 mil a 86 mil anos escavado em Idaho. Como o DNA antigo estava profundamente degradado e fragmentado em trechos minúsculos de apenas 60 nucleotídeos, a abordagem clássica de montagem era inviável.

Diante desse desafio, a equipe desenvolveu uma técnica inovadora chamada "montagem iterativa". A estratégia consistiu em alinhar os fragmentos fósseis a uma base genética de lobo ou chacal e, gradualmente, ajustar esse molde até alcançar uma referência híbrida e exclusiva do lobo-terrível. A consistência da técnica foi atestada por uma profundidade de cobertura que atingiu 12,8 vezes no fóssil do crânio.

Por que reintroduzir genes de espécies extintas na natureza?

Por trás do marco biotecnológico e de todo o apelo midiático da "desextinção", o foco central dos pesquisadores continua sendo a preservação da biodiversidade atual. As soluções criadas para o lobo-terrível ou para o tilacino (o lobo-da-tasmânia) funcionam como pontes diretas para socorrer espécies vivas à beira do colapso. Matt James, diretor da divisão de animais da Colossal Biosciences, resumiu a iniciativa em entrevista ao Gizmodo:

“Uma das histórias menos contadas da preservação na América do Norte é a do lobo-vermelho. Ele é o lobo mais ameaçado do mundo e deveria ser tão representativo para os Estados Unidos quanto a águia-careca, pois é um animal genuinamente endêmico daqui. É uma população em processo de recuperação que precisa de uma forcinha.”

Qual é o impacto real dessas tecnologias para o futuro?

Os frutos dessas pesquisas vão muito além do universo dos canídeos. As ferramentas de montagem iterativa já auxiliam outros laboratórios dedicados à análise de DNA antigo, ajudando a decifrar a trajetória evolutiva de animais extintos durante o Pleistoceno. Além disso, a Colossal Biosciences vem expandindo suas ações para a preservação de aves com o desenvolvimento de ovos artificiais, enquanto atua em parceria com órgãos oficiais dos EUA e com a UICN para resguardar o código genético de milhares de espécies ameaçadas.

No momento, nenhuma soltura na natureza desses lobos-terríveis geneticamente alterados está nos planos imediatos. Os espécimes habitam uma reserva ecológica protegida de vários milhares de hectares nos Estados Unidos, onde sua saúde, capacidade de reprodução e desenvolvimento passam por um rígido monitoramento científico contínuo.

Matéria traduzida de JeuxVideo*

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