Cientistas propõem plano ousado de bilhões: encher de água novamente o mar de Aral para capturar CO₂

Os fundos marinhos atuam como reservatórios de CO₂ e, sem água, o leito do mar de Aral está começando a liberar esse gás

Mar de Aral
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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O desaparecimento do mar de Aral, localizado entre o Cazaquistão e o Uzbequistão, é amplamente conhecido como um dos maiores desastres ecológicos provocados pela ação humana. A partir da década de 1960, o desvio dos rios que o abasteciam para impulsionar as plantações intensivas de algodão da União Soviética transformou o quarto maior lago do mundo em um imenso deserto salino.

No entanto, as consequências vão muito além da perda de biodiversidade e das mudanças geográficas locais. Na prática, o leito seco do mar de Aral tornou-se uma gigantesca fonte de emissão de gases de efeito estufa. Um estudo liderado por cientistas espanhóis quantificou o problema: estima-se que, desde o início do processo de secagem, o mar de Aral tenha liberado cerca de 748 milhões de toneladas de CO₂, um volume equivalente às emissões anuais somadas de Espanha, França e Bélgica.

Historicamente, regiões áridas transformadas em áreas agrícolas irrigadas, como ocorreu na Ásia Central, foram contabilizadas como sumidouros de carbono. No entanto, quando se considera o ciclo dessas áreas irrigadas juntamente com as emissões do lago que precisou secar para tornar esse modelo agrícola possível, o balanço geral se inverte completamente, passando a favorecer a emissão de gases de efeito estufa.

Lagos e áreas úmidas atuam como sumidouros naturais ao reter o carbono atmosférico absorvido pela vegetação durante a fotossíntese. Esse carbono acaba sendo transportado pelas redes fluviais e depositado nos sedimentos do fundo, onde permanece armazenado. E é justamente esse mecanismo que voltou a chamar a atenção dos pesquisadores.

O problema

A coluna de água funciona como uma barreira física que isola os sedimentos do oxigênio atmosférico. Quando a água desaparece, essa barreira deixa de existir. Com isso, o oxigênio penetra rapidamente nas camadas de sedimentos e desencadeia uma resposta biológica imediata: comunidades de microrganismos que estavam em estado de baixa atividade "despertam" e começam a degradar a matéria orgânica acumulada ao longo de séculos. É durante esse processo de degradação microbiana aeróbica que ocorre a liberação em massa de dióxido de carbono para a atmosfera, acumulado durante muito tempo.

As medições da equipe espanhola confirmam esse processo. Por meio da análise de sedimentos em um gradiente espacial até o centro da área úmida, os pesquisadores verificaram que as partes do leito que secaram mais recentemente ainda retêm uma grande quantidade de carbono orgânico em comparação com aquelas que ficaram expostas desde a década de 1960.

A solução

Uma das conclusões mais contundentes do estudo é que as atuais estratégias de mitigação na região não estão funcionando. Os esforços para plantar vegetação sobre o antigo leito seco apresentam uma capacidade praticamente nula de absorção de CO₂ nesse tipo de ecossistema árido e não oferecem uma solução efetiva.

Por isso, a única forma de interromper a degradação microbiana e frear as emissões de CO₂ é restaurar o isolamento físico dos sedimentos, ou seja, voltar a cobrir a área com água.

Os pesquisadores estimam que ainda restam cerca de 605 milhões de toneladas de CO₂ a serem liberadas caso nenhuma medida seja tomada. Evitar essa emissão em larga escala exigiria uma intervenção monumental, mas tecnicamente viável. O problema é que a antiga rede de irrigação da região desperdiça até 90% da água que transporta.

Por isso, modernizar toda a infraestrutura — um projeto estimado em 8,5 bilhões de euros (R$ 46 bilhões) — permitiria recuperar cerca de 50% da área original do lago existente em 1960. O resultado beneficiaria todo o planeta.

Para custear uma obra de engenharia hídrica dessa magnitude, os autores da pesquisa propõem usar as próprias emissões evitadas como forma de financiamento. A ideia é que, se for possível inundar novamente a área úmida e impedir a emissão dessas 605 milhões de toneladas de CO₂, esse volume possa ser convertido em créditos de carbono negociáveis.

Os cálculos estimam que o projeto geraria cerca de 323 milhões de toneladas equivalentes em créditos de carbono, cujo valor no mercado internacional ficaria entre R$ 20 bilhões e R$ 91 bilhões.

Imagem | Khusen Rustamov (Pexels)

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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