Fabricantes estão sendo culpados pela escassez de memória RAM; a Micron diz que o verdadeiro gargalo está em outro lugar e que situação não muda antes de 2018

Ela aponta o problema para limites industriais e para um mercado que mudou de escala

Memória RAM da Crucial / Imagem: Micron
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Victor Bianchin

Redator
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Victor Bianchin é jornalista.

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Há meses, a escassez de memória RAM faz parte do debate tecnológico. A princípio, parece um fenômeno que não precisa de muita explicação: se falta RAM e os preços sobem, a conclusão imediata é que alguém está privilegiando a IA e deixando o consumidor de lado.

Essa ideia pegou forte, sobretudo depois de decisões visíveis que afetaram o fornecimento doméstico e reforçaram a sensação de abandono. Mas, ao levar em conta como a memória é fabricada e como o fornecimento é mantido estável hoje, o gargalo não parece mais tão simples.

Uma decisão polêmica

Nesse clima de suspeita generalizada, a fabricante Micron se tornou um alvo preferencial, junto com outras grandes do setor, por uma decisão recente: o anúncio do fim dos produtos de consumo da Crucial. A empresa comunicou que deixará de vender memória RAM e armazenamento sob essa marca histórica, finalizando os pedidos atuais até fevereiro de 2026.

Para muitos usuários, isso foi interpretado como uma retirada direta do mercado consumidor justamente quando a memória está em falta. A Micron justificou a decisão afirmando que o crescimento impulsionado pela IA nos data centers disparou a demanda e que a saída da Crucial busca melhorar o fornecimento e o suporte aos seus clientes estratégicos em segmentos de maior crescimento.

Do ponto de vista da Micron, o problema não é abandonar o consumidor, mas uma mudança abrupta na escala do mercado. Christopher Moore, vice-presidente de marketing para o negócio de clientes e mobile, afirmou em entrevista ao Wccftech que a empresa continua tendo uma presença relevante em PCs e dispositivos móveis, ao mesmo tempo em que atende os data centers.

O que alterou o equilíbrio, segundo ele, foi o crescimento do negócio de data centers, impulsionado pela IA, que passou de representar cerca de 30% do mercado para se aproximar de 50% ou até 60%. Esse salto, ele defende, deixou toda a indústria sem margem suficiente.

A variedade também cria escassez

Para a Micron, o gargalo não está tanto na falta de fábricas, mas em como as que já existem são utilizadas. Moore explica que produzir memória não significa fabricar um único tipo de chip de forma contínua, mas alternar entre múltiplas densidades e configurações conforme o que os clientes pedem. Cada mudança — por exemplo, passar de módulos de 12 GB para 16 GB ou de 16 GB para 24 GB — obriga a reajustar as linhas e reduz o volume total de produção. Em um cenário de demanda disparada, essa variedade, que antes era administrável, vira um freio direto para a produção.

A nova fábrica da Micron em Idaho, em construção A nova fábrica da Micron em Idaho, em construção

Diante da tentação de pensar que novas fábricas vão resolver o problema, a fabricante pede paciência. Moore explica que ampliar a capacidade de memória não é um processo imediato, pois exige não só construir instalações, mas também equipá-las, validá-las e certificar cada produto com os clientes. A empresa lançou a pedra fundamental há três anos na planta ID1 em Idaho, nos EUA, cuja entrada em operação está prevista para meados de 2027. Mesmo assim, ele alerta que não haverá impacto significativo no fornecimento até que todo o processo de qualificação esteja concluído, algo que ele situa em 2028.

A Crucial saiu, o canal não

Moore garante que, embora a Crucial tenha desaparecido das prateleiras do varejo, a empresa continua fornecendo memória às grandes marcas de PCs e dispositivos móveis por meio de canais menos visíveis para o usuário final. Esse canal OEM, no qual a Micron fornece memória diretamente a integradores e fabricantes, concentra uma parte muito relevante do mercado e acaba incorporado a projetos e equipamentos comerciais. Do ponto de vista deles, o consumidor continua recebendo memória Micron, mesmo que não mais sob uma etiqueta reconhecível.

Com esse panorama, a falta de memória deixa de ser resultado de decisões isoladas e passa a se revelar como o desenlace de várias tensões sobrepostas: a demanda de data centers impulsionada pela IA, que mudou a escala do mercado, os limites operacionais na produção e os prazos longos para ampliar a capacidade. Tudo isso explica por que o fornecimento continuará apertado por anos.

A Micron coloca o horizonte de alívio não antes de 2028 e, até lá, o consumidor vai conviver com menos opções e preços pressionados. O gargalo, insiste a empresa, não está apenas em quem compra a memória, mas em como ela é fabricada.

Imagens | Micron

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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