Não sabemos o que fazer com as antigas minas de carvão; a ideia da Suíça é transformá-las em uma gigantesca "bateria"

  • A empresa de energia Alpiq adquire o megaprojeto Navaleo, declarado de Interesse Comum pela UE;

  • O investimento poderá atingir cerca de 450 milhões de euros para garantir a estabilidade da rede elétrica espanhola

Imagem | Freepik
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Fabrício Mainenti

Redator

No coração da região de El Bierzo, em León, onde o carvão reinou absoluto por décadas, o silêncio das minas abandonadas e inundadas está prestes a ser quebrado. Mas desta vez não haverá picaretas, nem vagonetes, nem minério bruto. O novo ouro da bacia mineira é a água, e aqueles encarregados de extrair seu potencial vêm dos Alpes. A empresa suíça de energia Alpiq mira esse legado industrial arruinado para transformá-lo em uma colossal "bateria" natural que promete ser o motor energético do futuro da Espanha.

Uma aquisição multimilionária em El Bierzo

A notícia que abalou o cenário energético local e internacional é a aquisição do megaprojeto "CDR Navaleo" pela multinacional suíça Alpiq, conforme detalhado em seu comunicado à imprensa.

No entanto, como descreve a mídia local, este projeto de armazenamento de energia hidrelétrica por bombeamento foi inicialmente desenvolvido pela Erbienergía, uma empresa promovida e controlada pelo conhecido empresário da mineração Manuel Lamelas Viloria. Apesar da venda, a construtora sediada em Bierzo manterá uma participação na empresa para continuar colaborando e apoiando seu desenvolvimento no local.

Os números do projeto são colossais

Embora há dois anos o projeto já tivesse garantido uma subvenção substancial de € 35,5 milhões (cerca de R$ 223,9 milhões) do Ministério da Transição Ecológica (MITECO), o investimento total necessário para construir essa megaestrutura é muito maior.

Agora, segundo o ElDiario.es, o orçamento estimado ultrapassa € 300 milhões (cerca de R$ 1,8 bilhão), mas outras fontes elevam o valor do investimento para mais de € 400 milhões (cerca de R$ 2,5 bilhões), situando-o entre € 420 e € 450 milhões (entre R$ 2,6 e R$ 2,8 bilhões).

E por que a Espanha?

Para entender a magnitude de Navaleo, é preciso olhar para o céu. A Espanha tem metas muito ambiciosas para a penetração de energias renováveis, como a solar e a eólica, mas essas fontes são intermitentes: o sol nem sempre brilha ou o vento sopra quando acendemos a luz em casa. Portanto, o sistema elétrico precisa urgentemente de "armazenamento e flexibilidade para garantir a estabilidade da rede", explica a empresa suíça.

É aqui que entra esta central elétrica, que contribuirá com 535 megawatts (MW) de capacidade flexível para a rede espanhola, segundo a imprensa local. Para se ter uma ideia da sua dimensão, a atual Terceira Vice-Presidente, Sara Aagesen, salientou durante uma visita à região que "todos os edifícios residenciais da província de León poderiam ser abastecidos com a produção anual desta central de recuperação de energia renovável Navaleo", conforme noticiado pelo El Economista.

O impacto transcende as fronteiras espanholas

Para compreender o fenômeno, é necessário considerar a importância da infraestrutura. A Comissão Europeia incluiu Navaleo na sua lista de Projetos de Interesse Comum (PCI), destacando o seu valor estratégico para a segurança energética de todo o continente, o que também abre portas a um melhor financiamento através do Banco Europeu de Investimento.

Para a empresa suíça, que opera no mercado espanhol há 25 anos, este é um marco importante: trata-se do seu primeiro projeto hidroelétrico de grande escala fora da Suíça.

A engenharia por detrás da "bateria"

O mecanismo técnico é tão fascinante quanto colossal. A instalação funcionará utilizando um sistema de armazenamento de energia hidrelétrica por bombeamento em circuito fechado.

Na prática, envolve o aproveitamento da água subterrânea de antigas operações de mineração, conforme explicado pela mídia local. O sistema bombeará água da área do Rio Tremor para uma elevação mais alta, onde será armazenada em um reservatório. Quando o país precisar de eletricidade, essa água será liberada por meio de um grande tubo para acionar uma turbina e gerar energia.

O projeto desse circuito fechado fornecerá à rede elétrica pelo menos oito horas ininterruptas de armazenamento de energia, funcionando literalmente como uma imensa bateria de água recarregável.

Mas, uma mina abandonada?

Utilizar uma antiga mina de carvão levanta preocupações óbvias sobre toxicidade. Atualmente, as minas abandonadas estão inundadas e suas águas contêm minerais e contaminantes. Longe de ser um problema, esse é um dos maiores valores agregados do projeto. A usina é chamada de "CDR" justamente por ser uma Estação de Tratamento de Esgoto Reversível.

"Com nosso ativo, ofereceremos flexibilidade e armazenamento, além de um benefício ambiental. Drenaremos a água contaminada das minas e a trataremos", explica Amédée Murisier, executivo da Alpiq, em declarações ao El Economista.

Dessa forma, um passivo ambiental e terras degradadas se transformam em um ativo de energia limpa. Além disso, a viabilidade é garantida: a empresa já possui uma concessão de água concedida por um período de 75 anos, assegurando a continuidade operacional a longo prazo.

Previsões e cronogramas

O macroprojeto abrangerá os municípios de Torre del Bierzo, Castropodame, Congosto e Molinaseca, na região de Bierzo, áreas severamente impactadas pelo fechamento das minas. Em relação ao cronograma, há algumas nuances. Enquanto o Grupo Viloria esperava iniciar a construção este ano, os novos proprietários suíços estão aplicando sua conhecida precisão e cautela.

Amédée Murisier destaca que ainda há um ano e meio de trabalho pela frente para refinar os estudos geológicos e a engenharia detalhada antes de tomar a decisão final de investimento. O que é certo, e em que todas as partes concordam, é que a usina iniciará sua operação comercial no início da década de 2030.

Onde antes os mineiros de León desciam às entranhas da terra para extrair carvão com picaretas, em poucos anos milhares de litros de água purificada fluirão, impulsionados pela tecnologia suíça. O projeto Navaleo não é apenas uma façanha monumental da engenharia; é a metáfora perfeita para a transição energética.

Um exemplo clássico de economia circular que demonstra como os antigos fantasmas industriais de El Bierzo podem ser reaproveitados, revitalizados e, em última instância, se tornarem a chave para garantir um futuro verde e elétrico para a Espanha.

Imagem de capa | Freepik

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