Há um número que se tornou viral no Twitter nestes dias: mais de 10%. Essa é a probabilidade que Evan Hubinger, um pesquisador da Anthropic, acredita existir de que a inteligência artificial acabe com todos os humanos durante a próxima década. O comentário respaldou a decisão de Jacob Coxon, um colega seu que acaba de deixar a empresa, denunciando que as empresas de IA estão "brincando com nossas vidas".
Hubinger, na verdade, argumentava que considerava baixo o risco representado pelos modelos de IA atuais. Para ele, o preocupante é o que pode estar por vir: uma superinteligência criada por autoaperfeiçoamento recursivo, ou, em outras palavras: sistemas de IA que ajudem a criar sistemas de IA ainda melhores.
Para Coxon, que preferiu pedir demissão, os próximos um ou dois anos serão decisivos. Ele pede que tanto a OpenAI quanto a Anthropic não se lancem de cabeça nessa corrida, algo difícil de conseguir quando a IA já está sendo usada para acelerar a pesquisa em IA.
I resigned from Anthropic today. I spent the last three years doing pretraining research at both OpenAI and Anthropic. Neither company is acting responsibly. They are racing straight to self-improving superintelligence and gambling with our lives. More thoughts below.
— Jacob Coxon (@hilbertspaess) September 9, 2026
Como a IA irá nos matar?
O The Wall Street Journal divide os cenários de extinção em duas grandes famílias. Uma, mais hollywoodiana, é a perda de controle: um sistema de IA muito mais inteligente poderia ter objetivos incompatíveis com os da humanidade e adquirir capacidade suficiente para impedir que o detenhamos. A outra é menos chamativa, mas igualmente preocupante: continuarmos controlando a IA, mas alguém usá-la para criar um vírus letal, lançar ciberataques ou atacar infraestruturas críticas.
Para chegar aos 10% citados por Hubinger, seria necessário uma série de eventos decisivos. Teríamos de criar sistemas de IA muito superiores a nós, que eles pudessem acelerar o desenvolvimento de seus sucessores, que essa aceleração fosse rápida e que adquirissem autonomia suficiente para que não pudéssemos detê-los. Essa estimativa, por enquanto, é apenas subjetiva, tentando colocar números na incerteza. Esses 10% não foram medidos experimentalmente e seu significado real é nulo porque não há provas nem evidências de que façam sentido. Assim como podem ser 10%, poderiam ser 90% ou 0%.
Mas a preocupação existe. Hubinger não é qualquer um: ele dirige a estratégia de alinhamento da Anthropic, o que significa que é responsável por fazer com que os modelos da empresa trabalhem alinhados com os seres humanos e busquem um objetivo comum e benéfico para a humanidade. Samuel Marks, outro dos executivos da Anthropic, explica que, entre os desenvolvedores, existe uma preocupação real com um potencial desastre, sobretudo entre os veteranos. O fato de Coxon ter renunciado à sua participação econômica na empresa reforça o valor de sua mensagem, mas não significa que sua crença esteja correta.
“As pessoas que estão desenvolvendo a IA acreditam sinceramente que ela pode acabar com todos nós até o final da década. Isso não é uma jogada de marketing. Pelo contrário: muitos executivos e pesquisadores de alto escalão costumam medir as palavras na imprensa para parecerem sensatos — mas ouço essas mesmas pessoas expressarem medo em conversas privadas. Nenhuma outra atividade humana representa esse nível de perigo”, disse Coxon em sua conta no X.
Jacob is correct here—we really do earnestly believe AI could kill all humans! I personally think it is >10% within the next decade. I believe Anthropic is trying its best, but we do not yet have a plan to solve alignment for superintelligence and are not clearly on track to. https://t.co/QAIHiFP3QZ
— Evan Hubinger (@EvanHub) September 9, 2026
Em uma entrevista à Wired, Coxon afirma que considera a Anthropic mais responsável que a OpenAI em matéria de alinhamento e que não detectou ninguém ali reduzindo esforços em matéria de segurança. Para ele, o problema é que justamente quem reduz esses esforços seja outro: um concorrente como a OpenAI, ou talvez um laboratório de IA chinês. Aqui ele alude ao dilema do prisioneiro: até uma empresa convencida de que deveria frear o desenvolvimento da IA tem incentivos demais para continuar se acreditar que os demais não farão o mesmo.
A China complica as coisas
A preocupação demonstrada por especialistas ocidentais em IA não é um caso isolado: na China existe uma comunidade crescente de especialistas pesquisando sobre a segurança dos agentes de IA, a perda de supervisão humana e o autoaperfeiçoamento recursivo. No relatório State of AI Safety in China 2026, essas preocupações são justamente identificadas e figuras como o vencedor do Prêmio Turing Andrew Yao participam de estratégias de segurança e governança de IA.
Não é habitual que os responsáveis por DeepSeek, Alibaba ou Moonshot falem desses riscos para a humanidade. A preocupação existe, mas sua expressão pública é muito diferente daquela exibida no Vale do Silício.
Coxon acredita justamente que um acordo entre Anthropic e OpenAI seria apenas o primeiro passo para mitigar esses riscos: o ideal seria haver um esforço de cooperação internacional que envolvesse a China. Nessa aliança, por exemplo, deveria ser discutido o controle do poder computacional avançado de forma semelhante à maneira como são tratados os materiais nucleares. É importante observar aqui que EUA e China estão preparando, neste mês, suas primeiras conversas bilaterais centradas na segurança da IA.
Se há tanto risco, por que continuam construindo modelos de IA? A razão é simples: aqueles que levantam esses riscos também veem o outro lado da questão. Coxon fala sobre como a IA pode ajudar a curar doenças, acelerar descobertas científicas ou permitir alcançar uma abundância extraordinária. Além disso, existe entre as empresas de IA a convicção de que, se a superinteligência puder ser criada, alguém acabará fazendo isso, portanto é preferível tentar do que ficar para trás.
Imagem | Xataka com Magnific
Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.
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