Sabemos que o Everest vem perdendo gelo há décadas devido ao aquecimento global, mas uma nova pesquisa quantificou um fator muito mais inesperado: as milhares de pessoas que, a cada primavera, constroem uma pequena cidade na geleira Khumbu. Combustível, aquecimento e os mais de 6 mil litros de urina produzidos diariamente liberam calor sobre o gelo. A questão fundamental é: até que ponto a superlotação está agravando um problema que já existia?
O Everest está derretendo, e a urina está acelerando o processo
Há alguns dias, o New York Times noticiou que, a cada primavera, milhares de alpinistas, sherpas, guias e trabalhadores se reúnem por cerca de sete semanas no Acampamento Base do Everest, localizado diretamente sobre a geleira Khumbu.
A necessidade de hidratação constante em grandes altitudes tem uma consequência peculiar: pesquisadores estimam que mais de 6 mil litros de urina são produzidos ali diariamente, e boa parte dessa urina acaba diretamente na geleira. Sua temperatura contém energia térmica e, de acordo com o estudo publicado na Regional Environmental Change, durante uma única temporada, essa energia seria teoricamente suficiente para derreter cerca de 154 toneladas de gelo e neve.
Parece absurdo até que se entenda
O Everest não é mais apenas o lar de algumas barracas de membros de expedições que sobrevivem com o mínimo necessário. Durante a alta temporada, seu acampamento base se transforma em um assentamento temporário com cerca de 1,6 mil tendas, oferecendo cafés expressos, TVs de tela grande, Wi-Fi de alta velocidade, chuveiros quentes e até acomodações com tapetes persas e piso aquecido.
Manter essa infraestrutura a mais de 5 mil metros de altitude exige um suprimento constante de combustível, então milhares de pessoas não apenas ocupam uma geleira em recuo, mas também cozinham, aquecem suas casas, geram eletricidade e produzem resíduos diretamente em sua superfície por semanas a fio.
A urina é surpreendente, mas há um porém
Pesquisadores reconstruíram o consumo do acampamento durante a primavera de 2023: 824 botijões de gás liquefeito, 18.935 litros de querosene e outros 5.130 litros de gasolina usados para cozinhar, aquecer e gerar eletricidade.
Somando o calor produzido por esses combustíveis e o conteúdo térmico da urina, eles calcularam uma energia de 849.174 megajoules, teoricamente equivalente ao derretimento de aproximadamente 2.492 toneladas de gelo e neve durante os 50 dias analisados, com uma estimativa que varia de 1.964 a 3.020 toneladas. As 154 toneladas atribuídas à urina são, portanto, a descoberta mais surpreendente do estudo, mas representam apenas cerca de 6% do potencial térmico calculado: a grande maioria provém de combustíveis.
Outra anomalia
A equipe também utilizou imagens térmicas do Landsat, capturadas entre 1991 e 2023, para comparar a evolução das temperaturas da superfície. O problema era a frequente cobertura de nuvens no Everest, então eles selecionaram imagens sem nuvens e compararam o acampamento base com áreas cobertas de neve da própria região de Khumbu e com o terreno próximo fora da geleira.
Eles descobriram que a temperatura da superfície ao redor do acampamento aumentou aproximadamente 0,28 °C por ano durante o período do estudo e que o aquecimento observado ali foi aproximadamente o dobro do observado em outras partes cobertas de neve da geleira. Os autores consideram essa diferença consistente com uma pegada humana localizada, embora isso não lhes permita atribuir todo o aquecimento exclusivamente à atividade dos alpinistas.
Além disso
As estimativas são deliberadamente parciais, uma vez que os pesquisadores levaram em conta apenas as fontes para as quais conseguiram obter dados razoavelmente confiáveis. Eles deixaram de fora o calor gerado por milhares de corpos humanos, os iaques usados para transportar suprimentos, os excursionistas que atravessaram a área e os inúmeros voos de helicóptero associados às expedições.
Nem todo o calor calculado se transforma necessariamente em gelo derretido: as 2.492 toneladas representam um equivalente termodinâmico da energia liberada, não uma medição direta da quantidade exata de geleira que desapareceu devido ao acampamento. A pesquisa tenta quantificar uma fonte de calor local que, até então, havia recebido muito menos atenção.
Principal culpado
O estudo não afirma que o Everest está derretendo principalmente porque milhares de alpinistas urinam nele. O aquecimento global continua sendo o principal fator do recuo das geleiras do Himalaia, e a taxa de perda de gelo nas geleiras do Everest praticamente dobrou desde 2009.
O que é preocupante é que uma enorme população temporária se concentra a cada ano em uma dessas geleiras, que já estão passando por um rápido aquecimento, adicionando novas fontes de calor exatamente ao mesmo local. Os 6 mil litros por dia servem, portanto, como uma medida extraordinária da escala que a presença humana atingiu: até mesmo algo tão corriqueiro quanto ir ao banheiro está começando a ser quantificável em toneladas de gelo.
A solução mais radical
O problema também não termina com o derretimento. Os dejetos humanos ameaçam uma massa de gelo que alimenta os recursos hídricos utilizados rio abaixo, enquanto o recuo glacial pode contribuir para o aumento de riscos como avalanches e inundações repentinas causadas pelo rompimento de lagos glaciais. Soma-se a isso o fato de que, em uma montanha, excrementos, barracas abandonadas, cilindros de oxigênio e outros vestígios de expedições continuam a aparecer.
Por essa razão, pesquisadores sugerem que, a longo prazo, a realocação do acampamento base do Khumbu para um terreno estável próximo deve ser considerada. Depois de décadas transformando o teto do mundo em um dos destinos turísticos mais extremos do planeta, a questão não é mais apenas quantas pessoas o Everest pode suportar, mas quanta energia térmica e resíduos o gelo sobre o qual elas vivem pode resistir.
Imagens | Wikimedia, Peter West Carey, MICHAEL WALKER, Mário Simoes (Flickr), Munu Nepal (Flickr)
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