O debate sobre a IA não é mais “otimistas X pessimistas”, e sim empresas com bilhões em jogo disputando umas contra as outras

Enquanto OpenAI e Anthropic querem frear o desenvolvimento da IA, a Nvidia e a Casa Branca querem acelerá-lo

Disputa por inteligência artificial
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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O ChatGPT não estava nem há seis meses no mercado quando o especialista Eliezer Yudkowsky nos avisou de que a IA "mataria todos nós". Seu discurso fatalista não foi o primeiro, mas reavivou a preocupação diante de uma ameaça real para a raça humana. Hoje, essa preocupação está em níveis históricos, pelo menos se dermos ouvidos a Amodei ou Altman, que defendem frear o desenvolvimento da IA. De repente, Anthropic e OpenAI querem se tornar cautelosas e pedem a colaboração do governo dos EUA, que não quer nem ouvir falar dessa opção. A razão é simples e tão antiga quanto o mundo: dinheiro.

Tudo começou no fim de semana, quando Dario Amodei, CEO da Anthropic, pediu abertamente que o ritmo de desenvolvimento dos modelos de fronteira fosse ajustado ("We must pace the frontier", disse). Sam Altman e sua equipe aderiram à ideia, assim como Elon Musk, Demis Hassabis e, com ressalvas, Satya Nadella — a Microsoft publicou seu próprio manifesto humanista. Anthropic, OpenAI e Google chegaram até a discutir a criação de um órgão conjunto de segurança, algo insólito considerando que todas essas empresas competem para dominar essa indústria.

A OpenAI consultou o Congresso dos EUA para saber se existia a possibilidade de várias empresas concorrentes se coordenarem para desacelerar o desenvolvimento da IA e se isso violaria as leis antitruste do país. O vice-presidente dos EUA, JD Vance, disse que achava estranho que as grandes empresas de IA pedissem ao governo que as regulasse e classificou a estratégia como um "cavalo de Troia".

Frear a IA pode ser muito lucrativo

Uma regulamentação que obrigue a realização de avaliações profundas e estabeleça controles externos ou processos de segurança pode ajudar a nos proteger, mas também pode ser um obstáculo para aqueles que tentarem cumprir todos os requisitos impostos por essas normas. Ou seja, as pequenas e médias empresas e startups que tentam avançar nesse campo teriam uma enorme barreira de entrada.

Para o conhecido investidor Michael Burry, todas essas advertências da Anthropic e da OpenAI não passam de um reforço para seus negócios e servem para alimentar a narrativa de suas iminentes ofertas públicas de ações. São avaliações sem provas e, para ele, a humanidade "não tem nada a temer". Há outro efeito claro de frear a IA: isso daria fôlego à OpenAI e à Anthropic, que certamente agradeceriam essa trégua.

Jensen Huang, CEO da Nvidia, rejeitou frontalmente esse alarmismo e considera que desacelerar o desenvolvimento da IA é um erro. Sua mensagem é clara: os EUA devem continuar acelerando esse desenvolvimento e, para ele, as empresas de IA deveriam "não exagerar tanto" (nas palavras dele, "tone down the drama").

Durante sua participação no evento All-In Summit 2026, Huang recebeu uma ligação de Donald Trump e ambos pareciam concordar que as advertências de Amodei eram exageradas. A posição de Huang é lógica: a Nvidia se dedica a vender as máquinas necessárias para que essa corrida continue. Como diz o analista Mike Issaac, a empresa está tão condicionada por seus interesses quanto as demais. O debate, na verdade, é sobre dinheiro e poder, como quase sempre.

O incentivo de Trump é a China

Segundo Trump, essas advertências eram uma "farsa" e, em uma publicação na rede social Truth, o presidente dos EUA afirmou que "o único controle ou salvaguarda de que a IA precisa é de um PRESIDENTE FORTE E INTELIGENTE (alto QI!), e os EUA já têm isso, e de sobra!". O presidente estadunidense rejeitou a ideia de frear e sustenta que "quem vencer a IA, vence". Fazer algo assim poderia dar vantagem à China, embora também haja muitos argumentos econômicos nesses comentários: a IA impulsionou investimentos gigantescos em dados, chips e energia, e tudo isso agora é motor da economia estadunidense.

François Chollet, criador do ARC-AGI Prize, fez um comentário muito interessante no X ao dizer que é perigoso ter que escolher entre duas explicações do tipo "essa pessoa acredita sinceramente em X e, por isso, quer Y" ou "a decisão X beneficia economicamente essa pessoa". A razão é simples: ambas podem ser verdadeiras, porque as pessoas costumam alinhar suas crenças e seus interesses. Nas palavras de Chollet, é possível ser "sincero e ter interesses próprios" ao mesmo tempo.

Começa a ficar claro que, sabendo que todos têm seus próprios interesses, teremos que decidir o quanto desse risco imposto pelo desenvolvimento da IA estamos dispostos a aceitar. As pessoas que melhor conhecem essa tecnologia são também aquelas que podem ganhar ou perder mais com as regras que adotarmos. É aí que está a dificuldade de distinguir o que são crenças e convicções sinceras do que é interesse próprio.

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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