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"Vou construir trilhos onde as lhamas pastam": o trem que cruza 68 túneis e 55 pontes a quase 5 mil metros de altitude nos Andes

Ferrovia Central do Peru levou 38 anos para ser concluída e ainda não sabe como se modernizar

Imagem | Kabelleger / David Gubler
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PH Mota

Redator
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PH Mota

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Jornalista há 15 anos, teve uma infância analógica cada vez mais conquistada pelos charmes das novas tecnologias. Do videocassete ao streaming, do Windows 3.1 aos celulares cada vez menores.

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Para ir do ponto A ao ponto B, o caminho mais curto é uma linha reta, mas quando se tem um terreno pontilhado de montanhas, as coisas mudam e o transporte se torna um verdadeiro desafio. Um bom exemplo é a longíssima Rodovia Pan-Americana, que percorre todo o continente americano... exceto por um trecho, uma selva impenetrável. Não é preciso sair do continente para encontrar outro meio de transporte que é uma verdadeira dor de cabeça: a Ferrovia Central do Peru.

Ferrovia no coração dos Andes

A Ferrovia Central do Peru possui uma linha de 490 quilômetros com 34 estações. A ferrovia inicia seu percurso no porto de Callao, no Pacífico, passa por Lima e, graças a dois ramais em La Oroya, conecta a capital a cidades andinas como Cerro de Pasco e Huancayo. Atravessa desertos e paisagens cobertas de neve, passando por 68 túneis, 55 pontes e 9 curvas em zigue-zague, segundo a concessionária oficial da ferrovia.

Das ferrovias com bitola padrão de 1.435 mm, é a única na América do Sul que opera a uma altitude de aproximadamente 4.782 metros acima do nível do mar, especificamente no Túnel Galera. Atinge seu ponto mais alto em "La Cima", a 4.835 metros, apenas 27 metros acima da Ferrovia Mineira de Antofagasta, no Chile. Por décadas, foi a ferrovia mais alta do mundo, mas em 2006, a Ferrovia Qinghai-Tibete, na China, que alcança 5.072 metros, tomou o título.

Mapa

Essencial para a mineração

Essa infraestrutura resolveu um dos maiores problemas do Peru no século XIX (e antes): sua geografia dividia o país em dois, e sem um meio de comunicação eficiente, os recursos minerais do interior andino eram inacessíveis para a indústria e a economia do país.

Hoje, além das estradas de montanha, a Ferrovia Central do Peru é a única rota possível para acessar o interior andino, permitindo o transporte de pessoas e mercadorias — estas últimas essenciais para a exploração dos recursos da região. Na prática, ela é usada para transportar minerais, cimento e combustível para a indústria de mineração. Também opera a rota turística Lima-Huancayo, sob concessão da Ferrocarril Central Andino S.A. desde 1999, embora seu uso seja em grande parte simbólico: segundo o jornal peruano La República, a viagem leva 14 horas e opera com horários limitados.

Empreitada monumental

Em 1851, o engenheiro civil polonês Ernest Malinowski, formado na École Polytechnique e na École des Ponts ParisTech e exilado no Peru, propôs estender a ferrovia Lima-Callao até o Vale do Jauja: o desafio era subir 4,8 mil metros em 500 quilômetros. Malinowski desenhou o traçado e sua construção foi confiada ao americano Henry Meiggs, que deveria concluir o projeto em seis anos. Alerta de spoiler: não. Meiggs é creditado com esta grandiosa frase: "Eu colocarei trilhos onde as lhamas caminham".

A construção começou em 1870, empregando 10 mil homens, a maioria da costa ou chineses de Macau. A infraestrutura e os recursos da época não eram os mesmos de hoje, e o terreno não ajudava, então o transporte de materiais — ferro, carvão, máquinas, madeira e pontes construídas e importadas da Inglaterra, França e Estados Unidos — foi uma verdadeira odisseia. Para piorar a situação, houve uma epidemia de verruga (benigna) e uma epidemia de febre que ceifou 700 vidas. Em 1878, a construção foi interrompida devido a problemas administrativos, e então veio a Guerra do Pacífico, que causou atrasos e uma mudança na gestão do projeto. Em 1893, a ferrovia chegou a La Oroya, e a última estação, Huancayo, foi concluída em 1908.

A experiência de viajar a 4,8 mil metros

Naturalmente, os aviões viajam numa altitude maior do que a da ferrovia, mas em um avião a cabine é pressurizada, algo que não acontece nos trens. O que você pode sentir, no entanto, é o mal da altitude. De acordo com o Manual Merck, o mal da altitude afeta 25% das pessoas que sobem a 2,5 mil metros, mas essa porcentagem sobe para 70% acima de 4,5 mil metros.

Essa doença é causada pela falta de oxigênio e pode se manifestar com sintomas que variam de dor de cabeça, náusea, fadiga e falta de ar a edema pulmonar. No entanto, uma subida lenta e medicação podem aliviá-la. Segundo o jornal La República, a empresa que opera o serviço garante "oxigênio a bordo" e assistência médica especializada caso os sintomas do mal de altitude se agravem.

Futuro incerto

O valor estratégico e histórico da Ferrovia Central Andina é inegável, mas sua atual concessionária (RDC) enfrenta uma situação complexa: ela é valiosa demais para ser abandonada, e modernizá-la é muito caro. No papel, existem projetos para a construção de um túnel de 23,2 quilômetros nos Andes, com um orçamento de US$ 2 bilhões, para reduzir a viagem entre Lima e Huancayo de 12 horas para menos de cinco, embora isso não tenha se concretizado há anos.

Imagem | Kabelleger / David Gubler

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