O conflito envolvendo o Irã e o veto chinês estão redesenhando o mapa global do hélio para semicondutores

  • O hélio é um gás insubstituível no processo de fabricação de chips;

  • A crise no Oriente Médio lançou dúvidas sobre a cadeia de suprimentos asiática

O conflito envolvendo o Irã e o veto chinês estão redesenhando o mapa global do hélio para semicondutores
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Fabrício Mainenti

Redator

Os Estados Unidos tornaram-se o principal fornecedor de hélio para o Japão, a Coreia do Sul e Taiwan, e é muito provável que sua participação de mercado continue a crescer. Essa conclusão decorre de uma análise da Nikkei Asia sobre dados alfandegários, que aponta Washington como o principal beneficiário de uma crise impulsionada pelo conflito envolvendo os EUA, Israel e o Irã, bem como pelas restrições de exportação impostas por Pequim.

De qualquer forma, trata-se de uma tendência significativa. O hélio é um gás insubstituível no processo de fabricação de chips, essencial para o resfriamento de wafers e para uso em gravação a plasma e fotolitografia. Japão, Coreia do Sul e Taiwan representam três dos ecossistemas de semicondutores mais importantes do mundo — liderados por gigantes como TSMC, Samsung e SK Hynix — e todos eles estão redirecionando parte de seu suprimento para os Estados Unidos.

Houve dois fatores desencadeadores para essa mudança. Primeiro, a crise no Oriente Médio lançou dúvidas sobre as cadeias de suprimentos asiáticas, gerando receios de que um fechamento de facto do Estreito de Ormuz pudesse complicar ainda mais o acesso ao hélio e ao gás natural liquefeito. Nesse cenário já instável, a China decidiu endurecer significativamente as restrições.

A China fechou a torneira em um momento crítico

Em 10 de julho, o governo chinês anunciou uma proibição imediata e temporária das exportações de hélio, citando sua Lei de Comércio Exterior sem fornecer maiores explicações. O Ministério do Comércio e a Administração Geral de Alfândegas da China contextualizaram essa medida no âmbito da escalada do conflito no Oriente Médio, que ameaça criar novos gargalos para um gás vital à produção de circuitos integrados.

No entanto, é importante esclarecer o peso real da China nesse mercado. O país produz apenas cerca de 15% (ou menos) do hélio que consome internamente, tornando-se dependente de importações do Catar, que responde por aproximadamente um terço da oferta global. Por essa razão, a dependência de fontes estrangeiras aproxima-se de níveis críticos, com estimativas variando entre 80% e 90%.

Uma breve observação antes de prosseguir: o hélio é insubstituível na fabricação de semicondutores porque não pode ser sintetizado industrialmente. Ele é extraído de depósitos de gás natural que contêm concentrações excepcionalmente altas do elemento e é utilizado para resfriamento de wafers, gravação a plasma, deposição química e de camada atômica, suporte à litografia e detecção de vazamentos.

Japão e Coreia do Sul: Níveis distintos de exposição

A exposição de cada país a esse cenário varia significativamente. Já em 2025, o Japão obtinha cerca de 60% de suas importações de hélio dos EUA e 37% do Catar, o que lhe permitiu mudar de fornecedor com relativa rapidez. A Coreia do Sul, por outro lado, dependia do Catar para 64,7% de suas importações — um índice que forçou a Samsung e a SK Hynix a agir com urgência e aceitar preços mais altos em novos contratos de longo prazo com a Linde e a Air Products.

A fabricação de chips de memória é particularmente intensiva no uso desse gás, devido aos processos repetidos de gravação e deposição em altas temperaturas necessários para o empilhamento 3D avançado. Muitos analistas do setor de semicondutores preveem que fornecedores industriais dos EUA — como Air Products, Linde e ExxonMobil — serão os principais beneficiários da restrição na oferta global.

De qualquer forma, o hélio agora se junta às terras raras, ao gálio, ao germânio e ao grafite como mais um capítulo na disputa geopolítica pelos recursos que sustentam a indústria de semicondutores.

Imagem de capa | Yuri Shkoda

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