Um século de energia tectônica liberada em apenas 39 segundos: o terremoto duplo que sacudiu a Venezuela

Dois abalos seguidos, com uma pausa de 39 segundos, provocaram um grande desastre na Venezuela

Terremoto na Venezuela
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Victor Bianchin

Redator
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Victor Bianchin é jornalista.

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A terra não deu trégua no norte da Venezuela, onde, nas últimas horas, dois terremotos de magnitude 7,2 e 7,5, acompanhados de mais de vinte réplicas, geraram um grande caos em boa parte do país, com um número crescente de mortos e estimativas que apontam até 100.000 vítimas.

A sequência cronológica e os dados fornecidos pelos sistemas globais de monitoramento, como o US Geological Survey, revelam um abalo que desafia os padrões sísmicos habituais. Assim, o primeiro terremoto registrou magnitude 7,2, um nível que por si só já é capaz de causar danos severos em infraestrutura crítica.

Mas o problema veio apenas 39 segundos depois do primeiro tremor, quando a terra voltou a se romper com um evento ainda mais violento, alcançando magnitude 7,5. Dois grandes terremotos que tiveram epicentro nas proximidades de Morón e do estado de Yaracuy.

Num primeiro momento, foi isso que se observou com os dados gerados pelos equipamentos automáticos de medição, já que se apontava para uma possível sobreposição das leituras. Mas não foi o caso, pois acabou se confirmando que o tremor de magnitude 7,2 atuou como um evento precursor imediato do terremoto principal de 7,5, o que muda completamente a perspectiva sobre a quantidade de energia mecânica dissipada na crosta terrestre.

A magnitude do problema

Um terremoto “normal” basicamente pode ser explicado como uma ruptura principal, que é o tremor principal, seguida de dezenas ou centenas de terremotos menores, as chamadas réplicas, que ocorrem enquanto as falhas se reajustam mecanicamente. A Venezuela viveu um “duplo sismo”, ou seja, dois terremotos de grande magnitude e tamanho comparável ocorrendo na mesma região tectônica com um intervalo de tempo extremamente curto, neste caso de segundos.

Dessa forma, quando o primeiro terremoto de 7,2 fraturou a rocha, ele não aliviou a tensão da zona, mas alterou drasticamente o campo de estresse em um segmento adjacente da falha. Por isso, ele atuou como um “gatilho” para empurrar a falha vizinha além do seu ponto de ruptura, “disparando” o terremoto de 7,5 apenas 39 segundos depois.

Esse tipo de ruptura encadeada submete as estruturas arquitetônicas a um desgaste extremo, já que os edifícios, cujas bases já foram enfraquecidas e colocadas em ressonância pelo primeiro impacto, recebem um segundo golpe de maior amplitude antes de conseguirem dissipar a energia cinética do primeiro.

Por isso, com essa série de terremotos, vimos grandes danos nas construções civis, incluindo aeroportos que, em alguns casos, ficaram completamente inutilizáveis.

A questão energética

O norte da Venezuela está assentado sobre uma zona de altíssima complexidade geodinâmica, marcada pela interação e pelo atrito contínuo entre a placa do Caribe e a placa sul-americana. Por isso, as falhas que atravessam essa região acumulam deformação elástica a uma taxa constante de vários milímetros por ano.

Por essa configuração tão complexa, já se previa que algo assim poderia acontecer. A engenheira civil Gina Paola Villalobos, em declarações ao jornal El País, destaca essas impressões e aponta que o problema está nas construções frágeis das cidades latino-americanas, que não estavam preparadas para isso.

Com toda essa informação, podemos ver que literalmente foi liberada uma energia de um século que vinha se acumulando nas camadas mais profundas do planeta. E isso não é uma simples hipérbole literária — em termos sismológicos, significa que um segmento específico da falha permaneceu “travado” ou acoplado mecanicamente durante décadas.

Durante todo esse tempo, o movimento das placas tectônicas seguiu seu curso, comprimindo e deformando a rocha ao redor como se fosse uma mola gigantesca. Agora, o duplo sismo de 7,2 e 7,5 representa o momento exato em que o atrito da rocha foi superado, liberando de forma violenta e em questão de minutos a energia elástica que a Terra levou mais de 100 anos para acumular.

Imagens | Bona Lee, Çağlar Oskay

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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