Um estudo americano demonstra que os humanos poderiam viver até 200 anos se o método proposto por eles fosse aplicado: o DNA de baleia

  • A imortalidade pode não estar no horizonte, mas retardar drasticamente os limites do envelhecimento parece cada vez mais tangível;

  • Frequentemente, buscamos avanços tecnológicos no Vale do Silício, mas desta vez a solução pode estar escondida nas águas geladas do Ártico;

  • Uma equipe de cientistas da Universidade de Rochester, no estado de Nova York, tem estudado o fascinante caso da baleia-da-groenlândia;

  • Este mamífero marinho, capaz de viver por mais de 200 anos, guarda um segredo biológico que estamos apenas começando a decifrar: uma extraordinária capacidade de reparar suas próprias células

Um estudo americano demonstra que os humanos poderiam viver até 200 anos se o método proposto por eles fosse aplicado: o DNA de baleia.
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Fabrício Mainenti

Redator

O segredo da longevidade está no frio

Esta descoberta pode revolucionar nossa abordagem à medicina regenerativa. A baleia-da-groenlândia é o mamífero mais longevo da Terra. Pesando quase 80 toneladas, este gigante dos mares percorre águas polares e parece imune a doenças relacionadas à idade, como o câncer. A chave para essa resistência tem um nome: proteína CIRBP (proteína de ligação ao RNA induzida pelo frio).

Essa proteína foi destacada em um estudo conduzido pela equipe de Rochester. Os cientistas descobriram que ela é particularmente ativada em resposta ao frio e permite que a baleia repare seu próprio DNA quando danificado. Vera Gorbunova, professora de biologia e autora principal do estudo, explica que essa descoberta abre caminho para o prolongamento da vida humana. Ela afirma:

Os resultados podem ajudar as futuras gerações a viverem mais do que a expectativa de vida humana típica.

Para testar sua hipótese, os pesquisadores realizaram um experimento: integraram essa proteína específica da baleia em células humanas em laboratório. O resultado foi conclusivo: as células se repararam com uma eficiência muito maior do que o normal. Melhor ainda, quando administraram essa proteína a moscas-das-frutas, sua expectativa de vida aumentou significativamente.

Solucionando o Paradoxo de Peto

Essa descoberta também ajuda a solucionar um enigma biológico de longa data conhecido como "Paradoxo de Peto". Logicamente, animais muito grandes, como baleias ou elefantes, têm muito mais células do que nós. Mais células significam mais divisão celular e, portanto, estatisticamente, um risco maior de mutações cancerígenas. No entanto, esses gigantes raramente desenvolvem tumores. O Dr. Alex Cagan, geneticista evolucionista do Instituto Wellcome Sanger, no Reino Unido, enfatiza a importância desse mamífero na pesquisa:

É uma estrela na pesquisa sobre longevidade. (...) Os resultados são convincentes e podem apontar o caminho para novas vias terapêuticas a serem exploradas.

A equipe de Gorbunova descobriu que, graças à proteína CIRBP, as baleias sofrem menos mutações perigosas. A proteína age como um mecânico de elite, capaz de reparar quebras nas cadeias de DNA, que são consideradas a forma mais perigosa de dano genético. Enquanto o DNA humano pode se deteriorar com o tempo, o DNA das baleias permanece intacto por muito mais tempo.

Em direção a terapias para humanos?

Embora não estejamos prestes a nos transformar em cetáceos, a aplicação desta pesquisa em humanos está sendo levada muito a sério. A ligação entre a produção dessa proteína e a temperatura externa é particularmente intrigante. Andrei Seluanov, coautor do estudo, observa um detalhe que pode mudar nossos hábitos diários.

Se simplesmente diminuirmos a temperatura em alguns graus, as células produzem mais CIRBP.

Isso sugere que a exposição ao frio pode estimular nossos próprios mecanismos de defesa, mesmo que naturalmente produzamos muito menos deles do que a baleia. Vera Gorbunova chega a levantar a ideia de que mudanças simples no estilo de vida, como tomar banhos frios, podem valer a pena serem examinadas sob uma nova perspectiva científica por seu potencial protetor.

O próximo passo para os cientistas será testar se essa proteína pode funcionar com a mesma eficácia em mamíferos mais próximos de nós do que a mosca, como camundongos. O objetivo é desenvolver estratégias para "regular positivamente" essa via biológica em humanos, sem a necessidade de viver a -20°C. Vera Gorbunova conclui:

Existem diferentes maneiras de melhorar a manutenção do genoma. Aqui, descobrimos que existe uma via única que evoluiu nas baleias-da-groenlândia, onde elas aumentam significativamente os níveis dessa proteína. Agora, precisamos verificar se conseguimos desenvolver estratégias para estimular a mesma via em humanos.
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