A internet transformou a maneira como a sociedade se comunica, trabalha e consome informação, facilitando a vida de bilhões de pessoas. No entanto, o mesmo ambiente que conecta também serve de esconderijo para crimes difíceis de rastrear. Em meio a um universo paralelo de anonimato e criptografia, o investigador Greg Squire, do Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos, se deparou com um dos casos mais complexos e perturbadores de sua carreira.
Imagens de uma menina de 12 anos, apelidada de Lucy, circulavam na dark web, uma camada oculta da internet que não pode ser acessada por navegadores e mecanismos de busca convencionais. Para que não fosse encontrado, o criminoso eliminou detalhes na imagem que pudessem revelar sua identidade ou localização. O que ele não esperava, portanto, é que uma simples parede de tijolos ao fundo das fotos fosse entregá-lo, desmontando o anonimato que ele acreditava ser absoluto.
Investigador busca pistas para encontrar vítima de abuso sexual
O trabalho de um investigador é, basicamente, analisar provas até que elas o levem até o criminoso. No caso que Greg Squire pegou, o ponto de partida da investigação era praticamente um beco sem saída. As imagens de abuso eram compartilhadas em fóruns criptografados, acessíveis apenas por softwares que dificultam o rastreamento de usuários. O criminoso, para se prevenir, fazia questão de cortar enquadramentos, borrar elementos da imagem e eliminar qualquer referência que pudesse denunciá-lo.
Mas Greg Squire e sua equipe não desistiram. Eles analisaram cada detalhe presente nas imagens, qualquer coisa que os fizessem descobrir a localização da vítima e responsabilizar os culpados. A partir dos detalhes observados, Greg conseguiu descobrir que a menina provavelmente estava na América do Norte devido ao tipo de tomada e interruptor visível em algumas fotos, mas isso ainda significava milhões de possibilidades.
Mas os investigadores não pararam por aí. Eles examinaram móveis, roupas de cama, brinquedos e até o padrão de um sofá que aparecia ao fundo. Com isso, descobriram que aquele modelo específico de sofá só era vendido em uma determinada região dos Estados Unidos, o que reduziu a lista de suspeitos para cerca de 40 mil possíveis compradores. Mesmo assim, a informação ainda era ampla demais.
Ao mesmo tempo em que procuravam pistas nas imagens, os investigadores solicitaram ajuda a plataformas digitais, incluindo o Facebook, para tentar identificar a menina por meio de reconhecimento facial. Mas a tentativa não deu certo, pois segundo a Meta, não havia ferramentas disponíveis para esse tipo de busca naquele contexto.
Parede de tijolos é a pista que faltava para solucionar o caso
Greg Squire e sua equipe não desistiram de procurar por pistas que o levassem até Lucy, e o avanço da investigação veio de onde menos se esperava: uma parede de tijolos aparentes na parede do quarto onde os abusos eram registrados. Mas como isso foi possível? Greg começou a pesquisar por tijolos na internet e acabou entrando em contato com a Associação da Indústria de Tijolos nos Estados Unidos.
A imagem foi compartilhada com especialistas da área, e um deles reconheceu imediatamente o padrão: tratava-se de um modelo específico chamado Flaming Alamo, produzido entre os anos 1960 e 1980 em uma fábrica no sudoeste do país. Porém, a descoberta só se tornou decisiva mesmo por um motivo: tijolos são pesados, e por isso, raramente são transportados por longas distâncias. Isso significava que a casa onde as imagens foram feitas provavelmente ficava a poucos quilômetros da antiga fábrica.
Com essa delimitação geográfica em mãos, os investigadores cruzaram a lista de compradores do sofá identificado nas fotos com endereços localizados em um raio de aproximadamente 160 quilômetros do local de produção dos tijolos. Com isso, a lista de suspeitos caiu de milhares para algumas dezenas de nomes.
A partir daí, foi possível identificar uma residência ligada a um homem com histórico de crimes sexuais. Agentes federais chegaram ao local e prenderam o criminoso, que vinha abusando da menina havia seis anos. Ele foi condenado a mais de 70 anos de prisão.
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