Tinha até sotaque: o curioso caso da foca nos EUA que sabia falar inglês

O animal conseguia verbalizar termos como "hello" ("olá") e "come on" ("vamos") imitando os seres humanos 

Hoover
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Victor Bianchin

Redator
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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Quem visitava o Aquário da Nova Inglaterra, em Boston, nos EUA, durante os anos 1980, procurava algo bastante especial: uma foca que falava inglês. E não, isso não é figura de linguagem. Hoover (esse era o nome do pinípede) falava de verdade, e de forma tão clara que ainda hoje impressiona os especialistas.

"Foca" e "falante" não são duas palavras que costumam aparecer juntas. Mas foi justamente por isso que Hoover despertou tanto interesse na época. E é por isso que, ainda hoje, 41 anos após sua morte, continua sendo tema de reportagens. Antes de entrar nos detalhes, vale a pena apresentar a protagonista.

A história começou em maio de 1971, quando George Swallow, um pescador do estado do Maine, fez algo pouco convencional: levou para casa um filhote de foca-comum macho (Phoca vitulina).

Em teoria, não foi um capricho nem uma excentricidade. O animal havia perdido a mãe e Swallow decidiu acolhê-lo: alimentava-o com as próprias mãos, brincava com ele e, em resumo, cuidava dele como se fosse um cachorro. Chegou até a lhe dar um nome: Hoover.

O problema é que, à medida que a foca crescia, precisava de cada vez mais peixe, tornando inviável que continuasse com a família Swallow. Seu destino acabou sendo o Aquário da Nova Inglaterra, para onde foi levada aos três meses de idade. A foto de abertura deste texto mostra Hoover quando era filhote.

A vida de Hoover foi relativamente normal até meados da década de 1970. Quando tinha cerca de cinco anos, os tratadores do aquário perceberam algo: a foca emitia sons semelhantes à fala humana.

"As vocalizações eram comuns sobretudo durante a época de acasalamento e frequentemente pareciam dirigidas às fêmeas, o que sugere que poderiam funcionar como 'cantos de acasalamento', semelhantes aos produzidos pelos machos da espécie", afirmou em 2023 um artigo publicado na revista Current Biology e assinado por um grupo de psicolinguistas e especialistas em biologia do comportamento.

A equipe do aquário não ensinou Hoover a falar. Tampouco a treinou para imitar sons. Supõe-se que tudo o que o animal aprendeu sobre vocalização humana foi assimilado ainda filhote, enquanto vivia com a família Swallow. Algumas versões afirmam que, quando a família entregou a foca ao aquário, ela já havia sido ouvida "falando", mas os especialistas costumam situar suas primeiras "palavras" por volta dos cinco anos de idade, quando atingiu a maturidade sexual.

O vocabulário da foca

E o que exatamente ele dizia? É aí que está a parte mais surpreendente. Segundo registra o próprio aquário, Hoover era capaz de pronunciar palavras como "hello" ("olá"), "come on" ("vamos") e "hey" ("ei"), tudo em inglês. O Guenther Speech Neuroscience Lab afirma inclusive que ele pronunciava frases inteiras que provavelmente ouviu na casa da família Swallow, como "Hoover get over here! Come on, come on" ("Hoover, venha para cá! Vamos, vamos"). Como se isso já não fosse surpreendente o bastante, há outro detalhe: dizem que ele falava com sotaque do Maine.

O melhor é que não é preciso imaginar. Embora não sejam especialmente nítidas, ainda existem algumas gravações da tagarelice de Hoover.

Muitas vezes, a melhor maneira de ouvir alguma coisa é simplesmente querer ouvi-la. É por isso que muita gente identifica palavras como "mamãe" em rosnados de cães ou miados de gatos. No caso de Hoover, Diandra Duengen e os demais pesquisadores que assinam o artigo da revista Current Biology acreditam que se trata de algo diferente. Não é que a foca emitisse um som confuso que lembrasse expressões como "Hello there", "hurry", "hey, hey" ou "come over here". Tudo indica que se tratava de uma imitação deliberada.

"A percepção humana é tão apurada para identificar padrões da fala que alguns animais podem enganar nosso cérebro, fazendo-nos ouvir sons da fala onde essa semelhança não existe", explicam os pesquisadores. "No caso de Hoover, há fortes evidências de imitação da fala. Os espectrogramas de seus sons mostram que suas vocalizações eram, de fato, muito 'humanas', contendo as modulações de formantes típicas que usamos para produzir vogais e consoantes."

Imitar é diferente de entender

Duengen e seus colegas lembram que há análises sugerindo que Hoover produzia sons semelhantes às vogais do inglês, o que faz dele um caso fascinante de "aprendizagem da produção vocal da fala humana em um mamífero". Os pesquisadores também acreditam que a foca pode ter usado essa habilidade como uma espécie de "canto de acasalamento", algo que os demais machos da espécie também fazem. O que não se pode afirmar é que Hoover "entendesse" o que dizia, algo que, de todo modo, não é necessário para a imitação da fala.

"A compreensão ou a intenção de transmitir significado não são relevantes para a aprendizagem da produção vocal. Nem Hoover nem a maioria dos outros animais que demonstram essa capacidade parecem 'entender' a língua falada ou o significado das palavras. Ainda assim, a imitação vocal é impressionante por si só e representa um componente fundamental da fala", afirmam os especialistas.

O fato de Hoover só ter começado a produzir esses sons ao atingir a maturidade sexual, mesmo se tratando de palavras que, em teoria, aprendeu ainda filhote, também não é algo excepcional. O mesmo ocorre com algumas aves que possuem essa mesma capacidade.

Na época, Hoover apareceu no programa Good Morning America e foi tema de reportagens da revista Reader's Digest e da revista The New Yorker, entre muitos outros veículos de comunicação. Além do aspecto curioso de sua história, o caso desperta o interesse dos cientistas por seu potencial para ajudar a compreender melhor como ocorre a aprendizagem da fala.

A aprendizagem da produção vocal é rara e exige uma série de habilidades que só foram observadas em algumas aves e em um pequeno grupo de mamíferos. Nesse seleto grupo, do qual os primatas aparentemente não fazem parte, estão as focas. "Hoover deu início a uma pequena revolução científica no estudo comparativo da aprendizagem vocal", afirmam os autores do artigo publicado na revista Current Biology.

Isso ajuda a explicar por que, apesar de a foca com sotaque do Maine ter morrido em 1985, seu caso continua inspirando cientistas até hoje.

Imagens | Steve Adams (Unsplash), Wikipedia e Yuriy Rzhemovskiy (Unsplash)

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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