Nem bombas, nem tiros: a guerra bizarra onde Canadá e Dinamarca usavam garrafas de uísque e bandeiras para provocar um ao outro

Durante quase 50 anos, Canadá e Dinamarca disputaram a posse de uma pequena ilha no Ártico trocando bandeiras, bilhetes e garrafas de uísque em vez de armas

Guerra Do Uisque
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Natália P. Martins

Redatora

Enquanto boa parte das disputas territoriais da história foi marcada por conflitos armados, uma pequena ilha no Ártico protagonizou um caso completamente diferente. Durante quase 50 anos, Canadá e Dinamarca disputaram a soberania da Ilha Hans sem disparar um único tiro. Em vez disso, os dois países travavam uma disputa bastante incomum, baseada na troca de bandeiras e garrafas de bebidas alcoólicas.

O episódio ficou conhecido como "Guerra do Uísque" e terminou apenas em 2022, quando os governos finalmente chegaram a um acordo para dividir oficialmente o território.

Uma pequena ilha provocou um impasse entre dois países

A Ilha Hans é um pequeno pedaço de terra desabitado localizado no Canal Kennedy, entre a Ilha Ellesmere, no Canadá, e a Groenlândia, território autônomo que faz parte do Reino da Dinamarca.

Em 1973, Canadá e Dinamarca assinaram um tratado que definiu grande parte da fronteira marítima entre os dois países. No entanto, a linha passava exatamente sobre a Ilha Hans, deixando sem definição a quem ela pertenceria.

Hansisland Imagem aérea da Ilha Hans, localizada no Ártico. Foto: Wikimedia Commons

Apesar de possuir apenas cerca de 1,3 km² e não ter população permanente, a ilha tinha importância estratégica por estar localizada em uma região do Ártico considerada relevante para a navegação, para a delimitação das fronteiras marítimas e para possíveis recursos naturais.

Disputa por território virou uma "guerra" de bandeiras e garrafas de uísque

A indefinição sobre a partilha de terras acabou ganhando um rumo inusitado em 1984. Naquele ano, militares canadenses desembarcaram na ilha, fincaram uma bandeira do Canadá e deixaram uma garrafa de uísque canadense acompanhada de uma mensagem de boas-vindas.

Pouco tempo depois, autoridades dinamarquesas fizeram exatamente o contrário: retiraram a bandeira canadense, hastearam a bandeira da Dinamarca e deixaram uma garrafa de schnapps ou conhaque dinamarquês, além de um bilhete dizendo: "Bem-vindo à ilha dinamarquesa."

Hans Island 2003 08 01 Utc 2301 Hdms Triton Commanding Officer Cdr S G Per Starklint Comandante dinamarquês Triton F358 na Ilha Hans em agosto de 2003, posicionando sua bandeiraFoto: Wikimedia Commons

Nas décadas seguintes, a cena se repetiu diversas vezes. Sempre que uma equipe de um dos países visitava a ilha, retirava cuidadosamente a bandeira do outro lado, hasteava a sua própria e deixava uma garrafa de bebida para os próximos visitantes.

O fato mais curioso é que tudo sempre aconteceu de forma cordial, sem disputas ou brigas. As bandeiras eram dobradas com respeito e as provocações mantinham sempre um tom bem-humorado.

Por que os dois países queriam uma ilha aparentemente sem importância?

Embora parecesse apenas uma grande brincadeira, havia razões diplomáticas por trás da disputa. Para a Dinamarca, manter a soberania sobre a ilha fortalecia sua presença no Ártico por meio da Groenlândia.

Já para o Canadá, controlar o território reforçaria sua posição em uma região estratégica próxima ao Mar de Beaufort, área considerada importante devido ao potencial de exploração de petróleo, gás natural e às futuras rotas marítimas abertas pelo derretimento do gelo no Ártico.

Ilha Hans

Conflito terminou em 2022, depois de 49 anos de trocas

Após décadas de negociações, Canadá e Dinamarca anunciaram um acordo histórico em junho de 2022. Em vez de definir um vencedor, os dois países decidiram dividir oficialmente a Ilha Hans ao meio.

Com isso, foi criada uma fronteira terrestre inédita entre Canadá e Dinamarca — algo curioso, já que um país fica na América do Norte e o outro na Europa.

O acordo foi amplamente elogiado pela comunidade internacional como um exemplo de resolução pacífica de disputas territoriais, especialmente em um momento em que diversos conflitos armados voltavam a ganhar força no cenário mundial.

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