O segredo obscuro no estacionamento: funcionários de loja dos EUA denunciam tática cruel que causa dor física proposital

Dispositivos de alta frequência instalados pela empresa causam mal-estar físico e geram acusações de “tortura sonora”

Home Depot. Crréditos: ShutterStock
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Laura Vieira

Redatora
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Laura Vieira

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Jornalista recém-formada, com experiência no Tribunal de Justiça, Alerj, jornal O Dia e como redatora em sites sobre pets e gastronomia. Gosta de ler, assistir filmes e séries e já passou boas horas construindo casas no The Sims.

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Desde o fim de novembro, um som agudo e persistente passou a tomar conta do estacionamento de uma loja da Home Depot em Cypress Park, em Los Angeles. A origem do ruído são máquinas instaladas em postes de luz, capazes de emitir frequências altas que causam mal-estar físico e dificultam a permanência no espaço. Mas o que levou a empresa a instalar tais equipamentos? Por um lado, a sociedade acredita que o intuito seja afastar trabalhadores imigrantes que diariamente buscam ofertas de trabalho informal na região. Por outro, a empresa nega qualquer relação com políticas de imigração e afirma que se trata de uma medida de segurança localizada.

Ruído constante provoca sintomas físicos e é visto como  uma forma de intimidação

As máquinas, três caixas instaladas em postes de iluminação sob um viaduto, segundo a denúncia, funcionam durante grande parte do dia, justamente nos horários em que os trabalhadores diaristas se concentram no estacionamento. Os trabalhadores diaristas são  indivíduos que trabalham fora do seu país de origem, prestando serviços de forma autônoma e ocasional. 

O barulho é descrito como um som agudo, contínuo e difícil de ignorar, que provoca dores de cabeça, náuseas, tonturas e uma sensação de pressão constante nos ouvidos. Alguns trabalhadores relatam dificuldade para se concentrar, conversar ou até permanecer no local por longos períodos, enquanto outros afirmam que o ruído continua ecoando na cabeça, mesmo horas depois de irem embora. Para quem depende daquele espaço para conseguir trabalho, o som se tornou mais um fator de desgaste físico e psicológico em uma rotina já marcada pela insegurança.

Por essa razão, muitos passaram a usar protetores de ouvido fornecidos pelo Instituto de Educação Popular do Sul da Califórnia (IDEPSCA), uma organização sem fins lucrativos que apoia esses trabalhadores há mais de 20 anos. Além de fornecer os equipamentos, o IDEPSCA organizou uma coletiva de imprensa no dia 17 de dezembro para pressionar a Home Depot a remover os dispositivos e denunciar o que considera uma tentativa de expulsar trabalhadores diaristas da área. A Home Depot também instalou barreiras amarelas que impedem o acesso ao estacionamento próximo ao centro de trabalho da organização.

A situação ficou ainda mais tensa porque a instalação das máquinas ocorreu poucos dias após uma operação do Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE) no mesmo local, que resultou em detenções e ferimentos em voluntários. Segundo a organização, cerca de 50 pessoas já foram detidas ali apenas neste ano.

Empresa nega ligação com imigração, mas comunidade  fala em “tortura sonora”

Questionados sobre o assunto, um porta-voz da Home Depot, George Lane, afirmou ao The Guardian que as acusações são falsas. Segundo a empresa, os dispositivos de ruído e as barreiras amarelas instaladas no local servem para impedir estacionamento noturno ilegal e lidar com “desafios operacionais específicos” da loja, que fica próxima a uma instalação aérea do Departamento de Transportes da Califórnia (Caltrans). A empresa também declarou não ter qualquer envolvimento com autoridades de imigração.

“Dizer que estamos cooperando com essas atividades de fiscalização da imigração é simplesmente falso. Não somos informados quando essas atividades vão acontecer e não estamos envolvidos de forma alguma nas operações. Não podemos interferir legalmente com as agências federais de fiscalização, incluindo impedi-las de entrar em nossas lojas e estacionamentos.”

A sociedade, no entanto, contesta a narrativa. A vereadora Eunisses Hernandez afirmou em suas redes sociais que parte do estacionamento onde as máquinas foram instaladas pode ser terreno público, o que motivou um pedido de investigação à prefeitura. Para ela, o uso de som de alta frequência contra uma população vulnerável não é uma coincidência, mas uma escolha consciente. “Usar o som como arma é uma forma de tortura”, declarou.

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