Crise da memória RAM é tão grande que mesmo empresas que não tinham nada a ver com ela estão considerando fabricá-las, como a Tesla

  • Na teleconferência de resultados da Tesla, Elon Musk insinuou possibilidade de abrir sua própria fábrica de memória RAM

  • Isso a colocaria ao lado da Intel e da China como agentes que atacam a soberania da Coreia do Sul sobre a tecnologia

Imagens | Gage Skidmore, Intel
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pedro-mota

PH Mota

Redator
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PH Mota

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Jornalista há 15 anos, teve uma infância analógica cada vez mais conquistada pelos charmes das novas tecnologias. Do videocassete ao streaming, do Windows 3.1 aos celulares cada vez menores.

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Nem avanços tecnológicos, nem uma revolução nos dispositivos: as crises são o que definem os últimos anos do setor. O veto à Huawei, a crise dos semicondutores de 2020 e, agora, a crise da memória RAM. A diferença entre esta e a anterior é que, enquanto a crise de 2020 foi causada por uma tempestade, a crise da RAM está sendo causada pelo interesse excessivo em data centers e inteligência artificial, arrastando todos os setores consigo.

O fato de não haver RAM para consumidores é um sintoma, mas implica algo muito maior: embora os principais fabricantes estejam investindo milhões para aumentar sua produção de RAM, não se trata de memória para consumo, mas sim para GPUs e sistemas de data centers. Apenas algumas empresas dominam a produção desses chips e, se não conseguem suprir a demanda, também não produzem chips de memória SSD – elevando preços.

Elas alocam toda a produção para atender às demandas de IA. E, como apontado na Fortune, Elon Musk, um dos proprietários de alguns dos maiores data centers do planeta, mostrou que há duas maneiras de enfrentar essa crise: batendo de frente com a parede ou agindo. A tradução disso é que a Tesla está considerando construir sua própria fábrica de memória RAM.

O problema é que isso é mais fácil dizer do que fazer.

Tesla e Intel interessadas em competir com gigantes da RAM

Nas últimas semanas, algumas das empresas líderes mundiais apresentaram seus resultados e a RAM foi o tema central. A PlayStation, por exemplo, garantiu estar plenamente consciente de sua capacidade de continuar fabricando o PS5 para não precisar aumentar o preço novamente; a NVIDIA vem afirmando há dias que precisa que a TSMC – sua principal fornecedora de chips – e a Samsung – que fornece a memória HBM4 de última geração – se organizem.

Enquanto isso, a perspectiva não é boa. A própria NVIDIA prevê sete ou oito anos de construção desenfreada de data centers. A Intel afirma que a crise se estenderá para além de 2028 e a Micron, uma das três maiores empresas de memória DRAM, classificou o gargalo do mercado como "sem precedentes". Nesse tsunami tecnológico, e durante a teleconferência de resultados da Tesla no final de janeiro, Elon Musk apontou que a empresa pode precisar construir sua própria fábrica de memória.

O objetivo é o mesmo de todas as empresas: garantir o fornecimento. Partir do zero para a fabricação de RAM é mais fácil dizer do que fazer, porém, aqui a Tesla tem uma vantagem: ela não é novata na fabricação de chips. Embora tenha abandonado o projeto por alguns meses, no início deste ano o próprio Musk afirmou que a empresa retornaria à disputa com seu próprio chip para data centers. Além disso, a Tesla possui recursos suficientes para criar uma sala limpa para a fabricação de chips ao lado de uma de suas fábricas existentes.

A Intel também busca se tornar uma das vozes importantes no mercado de RAM. Juntamente com a gigante japonesa SoftBank, a Intel está desenvolvendo uma evolução da memória DRAM empilhada, batizada de 'ZAM', que busca quebrar o monopólio da memória HBM da Samsung, Micron e SK Hynix.

Atualmente, o desenvolvimento na empresa está lento, e enquanto a Intel (que já está trabalhando nisso) levará de três a quatro anos para ter produtos comerciais, a ambição da Tesla pode se estender até a próxima década. Esperamos não continuar nessa crise até lá, mas se mais "players" estiverem interessados ​​em produzir RAM, isso implicaria que, diante de crises subsequentes, não haverá poucos dominando o setor, criando um gargalo como o que estamos vivenciando.

Efeito dominó da crise da RAM e a ação da China

Não se trata apenas do aumento do preço da RAM para os usuários: a questão é muito mais ampla. Se as empresas não têm capacidade para atender à demanda por RAM, elas concentram toda a sua força de produção numa única tarefa, negligenciando as demais. Isso explica o aumento do preço dos SSDs, mas também de outros produtos que não deveriam ser o foco dessa discussão: discos rígidos ou HDDs.

É um efeito dominó brutal porque, como dissemos, vai além do aumento do preço dos módulos: a memória RAM está mais cara para as empresas, o que implica em celulares mais caros ou com menos RAM, consoles com preços mais altos (como o que está sendo proposto para o Nintendo Switch 2), máquinas com lançamentos atrasados ​​e que ficarão mais caras (como o Steam Machine), problemas para carros e até mesmo impacto em roteadores.

Nesse cenário, em que empresas como Intel e Tesla estão buscando entrar no setor de memória RAM, temos empresas chinesas que antes não faziam parte da discussão se posicionando como uma opção para aliviar a demanda. Há, inclusive, relatos indicando que marcas de PCs como Asus, Dell e HP estavam considerando comprar memória de fabricantes chineses como a CXMT.

Seus módulos não são tão avançados quanto os da Samsung, por exemplo, e eles não têm a mesma capacidade de produção das empresas sul-coreanas, mas produzem. Em tempos de crise, é melhor isso do que vender laptops sem memória RAM.

Em resumo, ainda há mais empresas entrando na produção de memória RAM quando a crise já impactou totalmente o mercado, mas o objetivo não é criar mais RAM para nós, e sim para seus data centers. É hora de priorizar o que é mais sagrado: que seu PC não quebre e é hora de fazer um upgrade.

Imagens | Gage Skidmore, Intel

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