Japão já sabe há muitos anos qual é o segredo para ter menos sujeira em casa

  • Além da lama visível: especialistas explicam como a regra dos "sapatos zero" é vital para quem tem filhos ou animais de estimação;

  • "Efeito chinelo": como tirar os sapatos ao chegar em casa ajuda o cérebro a se desconectar do estresse do trabalho.

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PH Mota

Redator
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Jornalista há 15 anos, teve uma infância analógica cada vez mais conquistada pelos charmes das novas tecnologias. Do videocassete ao streaming, do Windows 3.1 aos celulares cada vez menores.

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Uma regra não escrita que muitos conhecem no Japão, costuma desaparecer em outras partes do mundo. Hoje, porém, a situação parece estar mudando globalmente. O que antes víamos como uma curiosidade cultural japonesa – ou uma excentricidade nórdica, por exemplo –, começa a fazer sentido no resto do mundo.

O contraste é fascinante. Enquanto em muitas casas ocidentais a limpeza é entendida como uma reação (limpar o que foi sujo), em outras culturas ela é um estilo de vida preventivo.

No Japão, o segredo não é limpar por horas, mas impedir que a sujeira entre: "Limpar não é uma reação, mas um estilo de vida baseado na prevenção". Essa filosofia se estende até mesmo ao ar que respiram; relatórios sobre ventilação residencial japonesa destacam a importância crucial de criar "corredores de ar" abrindo janelas opostas para expelir partículas em suspensão, uma obsessão com a higiene ambiental que invariavelmente começa na porta de entrada.

E não se trata apenas de percepção visual. Um estudo da Universidade Macquarie, em Sydney, coloca isso em perspectiva: até 60% da poeira e sujeira que se acumula dentro de uma casa vem de fora e entra, precisamente, pelos nossos pés.

Arquitetura do costume

Por que o mundo se divide entre aqueles que tiram os sapatos e aqueles que não tiram? A resposta reside em uma mistura de clima, arquitetura e filosofia.

No Japão, a fronteira é física. Segundo o portal de notícias Nippon, as casas possuem o genkan, uma área específica na entrada com um degrau chamado agari kamachi. Esse degrau marca a fronteira sagrada entre o "mundo exterior" (sujo) e o "mundo interior" (limpo). Além disso, a arquitetura tradicional japonesa utiliza pisos de tatame (esteiras de palha), um material delicado que seria danificado pelo uso de calçados rígidos.

No mundo anglo-saxão, a resistência é cultural. O jornalista Jeff Yang contou ao The Guardian uma história reveladora sobre sua tia taiwanesa, que lhe disse uma frase lapidar ao vê-lo entrar de sapatos: "Quando você entra na minha casa de sapatos, está pisando no meu coração". Esse contraste ilustra a divisão: para alguns, é uma questão de respeito; para outros, como indica o Real Simple, onde apenas 31% dos americanos sempre tiram os sapatos, é uma imposição desconfortável.

No Brasil, a história é diferente. Não existe uma tradição profundamente enraizada de tirar os sapatos ao entrar. Historicamente, fazê-lo na casa de outra pessoa poderia até ser interpretado como falta de educação ou excesso de confiança.

No entanto, essa tendência está mudando após a pandemia. Cada vez mais anfitriões estão impondo a regra de "sapatos zero" por questões de higiene. Não só por aqui, mas em outras partes do mundo, como no caso da influenciadora de estilo de vida Patricia Fernández que, citada no Lecturas, garante que "tirar os sapatos na entrada é a sua regra número 1", oferecendo sempre opções confortáveis ​​ou cestas com tênis para os seus convidados.

Para além da sujidade visível, tirar os sapatos tem um profundo impacto psicológico e simbólico. Não se trata apenas de higiene, mas sim de um ritual de transição. O Dr. Manuel Viso explicou que tirar os sapatos envia um sinal poderoso ao nosso cérebro: "Mudamos de ambiente, relaxamos, estamos em casa, deixamos o trabalho para trás". É uma mudança física para uma desconexão mental, como trocar de roupa.

De uma perspectiva energética, a especialista em Feng Shui Gloria Ramos detalha no Interiores que a porta principal é "a boca do Qi" (energia vital). Deixar os sapatos espalhados ou entrar com eles bloqueia essa energia e o bem-estar da casa. Até a maneira como você faz isso importa. No Japão, a etiqueta exige não apenas tirar os sapatos, mas também virá-los de forma que apontem para a porta (prontos para sair) e fazer isso sem dar as costas ao anfitrião, um gesto que denota respeito e consideração pela comunidade que habita aquela casa.

Ciência equilibra a balança

É aqui que o debate cultural se choca com a realidade microscópica. Se você achava que seus sapatos estavam limpos porque não pisou em lama, os especialistas têm más notícias.

"99% dos sapatos analisados ​​apresentaram contaminação fecal", afirma categoricamente o farmacêutico Álvaro Fernández ao jornal El Periódico de Aragón. Isso porque caminhamos por ruas onde há resíduos invisíveis de fezes de animais e sujeira de banheiros públicos. O microbiologista Jonathan Sexton, da Universidade do Arizona, confirma ao Muy Interesante que quase todas as solas abrigam bactérias como a E. coli (presente em 96% dos casos) e a Clostridium difficile, bactéria que causa sérios problemas intestinais.

Mas não se trata apenas de bactérias. Segundo o The Conversation, os sapatos carregam pesticidas de jardins, chumbo da poeira urbana e selantes asfálticos cancerígenos que acabam no ar de nossas casas.

É importante não cair no alarmismo. Embora os sapatos sejam focos de sujeira, eles não são os únicos culpados. Um estudo publicado no Scientific Reports alerta que os celulares também são "plataformas microbianas perigosas" que albergam um vasto leque de organismos, muitas vezes resistentes a antibióticos, e que constantemente encostamos no rosto e nas mãos. É mais um lembrete de que objetos rotineiros podem ter tanta ou mais carga bacteriana do que o calçado.

Ainda assim, especialistas como Kevin Garey salientam que, embora para um adulto saudável o risco de infeção proveniente do chão seja baixo (uma vez que não vivemos ao nível do solo), a recomendação é rigorosa se houver crianças pequenas a engatinhar ou pessoas imunocomprometidas em casa.

A tendência é clara: a barreira do tapete de entrada está a tornar-se mais rígida no Ocidente, mas ao nosso estilo. Não temos o genkan, mas aprendemos a adaptar os nossos corredores.

Cada vez mais casas incorporam bancos, cestos de vime ou sapateiras estreitas na entrada para facilitar esta transição sem perder o estilo. Talvez não tenhamos um tatame delicado ou um protocolo ancestral, mas as evidências científicas e a busca por conforto mental nos levam ao mesmo ponto: deixar os sapatos na porta não é uma mania, é o primeiro passo real para finalmente se sentir em casa.

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