Enquanto escrevo isto, há um robô aspirador passeando pelo corredor, mas, não faz muito tempo, essa tecnologia era reservada a ambientes muito distantes do doméstico, mais especificamente, ao setor militar. A empresa que criou essa categoria de produto, hoje tão comum, foi a iRobot, mas, antes de levá-lo para as casas de metade do mundo, ela se dedicava a algo bem diferente: desenvolver robôs militares táticos e para a detecção de minas.
A iRobot foi fundada em 1990 por Colin Angle, Helen Greiner e Rodney Brooks, três especialistas em robótica que haviam trabalhado no laboratório de inteligência artificial do MIT. Naquela época, porém, a empresa se chamava IS Robotics. O nome atual só chegaria no ano 2000. Durante os primeiros anos, a companhia se dedicou à pesquisa e ao desenvolvimento de robôs para diferentes clientes, desde universidades até órgãos públicos.
Muito antes de existir o conceito de robô aspirador, a iRobot desenvolveu vários projetos para diferentes setores:
- Genghis, 1991: seu primeiro robô foi projetado para a exploração espacial e tinha um design de seis patas inspirado nos insetos.
- Ariel, 1996: a empresa entrou no campo da detecção de minas em zonas costeiras, onde o acesso com outros veículos era mais difícil. Ele também tinha um design de seis patas, mas, dessa vez, inspirado em um caranguejo, e era capaz de se virar sozinho caso uma onda o derrubasse.
- Fetch, 1996-1997: a iRobot ingressou no setor militar com esse robô terrestre, cuja função era localizar munições e artefatos explosivos não detonados, para que pudessem ser removidos antes da entrada de operadores humanos.
- PackBot, 1998: foi seu projeto mais importante e surgiu a partir de um contrato de pesquisa da DARPA, a agência de pesquisa do Departamento de Defesa dos Estados Unidos. O PackBot era um robô terrestre destinado à exploração de terrenos perigosos. Ele era equipado com esteiras para superar obstáculos e um braço articulado para manipular objetos. O PackBot teve sua primeira grande atuação em 2001, nas operações de busca no World Trade Center. Mais tarde, em 2002, foi enviado junto com as tropas ao Afeganistão e ao Iraque.
O mesmo algoritmo
Embora exista uma diferença claríssima entre os primeiros robôs da empresa e aqueles que acabaram aspirando o chão das nossas casas, eles compartilham mais características do que parece. Em uma entrevista ao El País, em 2023, Colin Angle, fundador da empresa, afirmou: “O algoritmo original das Roombas é o mesmo que os robôs que fabricávamos para o Pentágono usavam, mas com um aspirador incorporado”.
A frase faz mais sentido quando observamos que, seja para limpar uma casa ou localizar munições não detonadas, o problema a ser resolvido é, no fim das contas, o mesmo: movimentar-se de forma autônoma, reagir diante de obstáculos e cobrir toda a superfície sem deixar áreas sem explorar.
Hoje em dia, os robôs aspiradores têm uma infinidade de sensores, câmeras para reconhecer obstáculos e algoritmos de IA que analisam tudo, mas, em 2002, quando a iRobot lançou a primeira Roomba, ela não tinha nada disso. Nem sequer criava um mapa ou sabia qual era sua posição dentro da casa. Seu funcionamento era muito mais rudimentar. Em um artigo publicado na Nautilus, Joe Jones, um dos engenheiros que projetaram aquele primeiro modelo, conta que incluir um sistema de posicionamento teria encarecido o robô em mais de 1.000 dólares, por isso optaram por outra estratégia.
O robô tinha dois modos: avançar (cruise) e desviar (escape). Ele se deslocava para a frente até encontrar um obstáculo, que detectava por meio de seu para-choque dianteiro. Dependendo de qual dos lados havia detectado a colisão, recebia a ordem de virar à direita ou à esquerda. Assim que percebia que não havia nenhum obstáculo à sua frente, continuava avançando. A combinação desses dois modos gerava uma trajetória aleatória que, com o tempo, acabava cobrindo o cômodo inteiro.
Aquela primeira Roomba estava muito distante dos aspiradores atuais, mas demonstrou que a tecnologia poderia ter uma aplicação cotidiana. É curioso pensar que a tecnologia que permite que esse robô termine de limpar o chão de casa nasceu para se movimentar por campos minados.
Imagem | Xataka com Magnific
Texto traduzido e adaptado do portal parceiro Xataka Espanha.
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