A China construiu uma criatura marinha de 40.000 toneladas com alma de porta-aviões. Seu segredo aponta para a maior dor de cabeça dos EUA

Tudo aponta para uma nova forma de fazer a guerra no mar

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Bárbara Castro

Redatora

A China acaba de anunciar um avanço que pode alterar os rumos da guerra naval: conseguiu lançar e recolher um drone de combate furtivo a partir de um colossal navio anfíbio de cerca de 40.000 toneladas. Não se trata exatamente de um porta-aviões nos moldes tradicionais, mas ele traz embarcada uma das tecnologias mais valiosas desse tipo de embarcação. O que realmente tira o sono dos Estados Unidos não é apenas o navio em si, mas a possibilidade de Pequim ter passado à frente em uma capacidade militar que a própria Marinha norte-americana testou há anos e acabou deixando de lado.

O navio em questão é o Sichuan, o primeiro navio de assalto anfíbio da classe Type 076 da China, identificado pelo número 51. Com deslocamento estimado em cerca de 40.000 toneladas, ele faz parte de uma categoria projetada historicamente para transportar fuzileiros, helicópteros e veículos de desembarque.

No entanto, Pequim equipou a embarcação com um convés de voo ampliado, hangar interno, elevadores e, o mais importante: uma catapulta eletromagnética acompanhada de cabos de desaceleração. Em termos práticos, é uma combinação quase ideal para um navio anfíbio, pois viabiliza o lançamento e o pouso de aeronaves de asa fixa — função historicamente restrita aos porta-aviões. Uma plataforma híbrida desenhada para conciliar operações anfíbias com ataques aéreos de longo alcance.

Segundo anúncio feito em uma conta oficial do Exército de Libertação Popular, o drone furtivo GJ-21 já completou com êxito sua primeira decolagem e aterrissagem a bordo do Sichuan. O marco é notável, ainda que haja uma ressalva essencial: o governo chinês não divulgou fotos ou vídeos da manobra, tampouco informou datas ou quantos testes foram realizados.

Registros de satélite examinados por especialistas do The War Zone apontam que o navio deixou seu cais habitual em Xangai durante vários dias de outubro, embora isso não sirva de prova cabal de que as operações aéreas tenham ocorrido. Por enquanto, o avanço permanece respaldado apenas pela versão oficial de Pequim, à espera de validação visual independente.

Uma imagem que acompanhava a publicação na conta "China Military Bugle" no X, a respeito do GJ-21 e do Type 076 Uma imagem que acompanhava a publicação na conta "China Military Bugle" no X, a respeito do GJ-21 e do Type 076

O GJ-21 é uma versão naval do GJ-11, conhecido como Mysterious Dragon, um veículo aéreo de combate não tripulado com formato de asa voadora. Seu desenho dispensa a cauda tradicional e prioriza a baixa detectabilidade ao radar, tornando-o perfeito para missões de reconhecimento e ataque em áreas com densa cobertura antiaérea.

Sua variante marítima foi adaptada para operar em alto-mar, recebendo uma barra de fixação no trem de pouso dianteiro para acoplamento na catapulta. Embora suas especificações detalhadas permaneçam em segredo, a possibilidade de operar a bordo do Sichuan permitiria à China enviar drones furtivos para muito além de suas bases terrestres, ampliando os tentáculos de inteligência e ataque de sua marinha.

O navio de assalto anfíbio Type 076 "Sichuan", no estaleiro Hudong-Zhonghua em 10 de outubro de 2026. À direita, vê-se também o que parece ser um navio-mãe para grandes veículos submarinos não tripulados (UUV) O navio de assalto anfíbio Type 076 "Sichuan", no estaleiro Hudong-Zhonghua em 10 de outubro de 2026. À direita, vê-se também o que parece ser um navio-mãe para grandes veículos submarinos não tripulados (UUV)

O grande trunfo do Type 076 é o seu sistema de lançamento eletromagnético, tecnologia que emprega energia elétrica para acelerar aviões, substituindo as pesadas catapultas a vapor. Em outubro de 2025, imagens vazadas mostraram um veículo de testes vermelho sobre o convés do Sichuan, usado justamente para testar o sistema de propulsão.

A embarcação iniciou suas primeiras provas de mar em novembro daquele ano e, em fevereiro de 2026, foram vistas réplicas do GJ-21 no convés e em um dos elevadores. Imagens posteriores revelaram novas demarcações de voo e a presença de três cabos de retenção. O caminho estava traçado para o uso de aeronaves não tripuladas de asa fixa, ainda que a comprovação visual do primeiro voo oficial ainda não tenha vindo a público.

Duas possíveis maquetes do GJ-11 em uma área de testes e treinamento na ilha de Changxing, em Xangai, em maio de 2024, perto de onde o navio Type 076 estava em construção na época Duas possíveis maquetes do GJ-11 em uma área de testes e treinamento na ilha de Changxing, em Xangai, em maio de 2024, perto de onde o navio Type 076 estava em construção na época

O maior perigo que o Sichuan oferece aos EUA não é competir mano a mano com um superporta-aviões da classe Gerald R. Ford, mas sim multiplicar as frentes pelas quais a China pode lançar ataques aéreos. Um navio anfíbio apto a operar aeronaves não tripuladas invisíveis pode cumprir missões de vigilância e ataque, apoiar desembarques em praias e operar em sincronia com porta-aviões maiores, como o Fujian.

Essa flexibilidade tática torna-se decisiva em um eventual atrito em torno de Taiwan ou no Mar do Sul da China, palcos em que Pequim quer estender seu escudo de defesa. Em vez de concentrar todos os caças em poucos porta-aviões de alto valor, as forças armadas chinesas poderiam dispersá-los por várias plataformas, o que complica o monitoramento, a interceptação e a resposta das frotas dos Estados Unidos.

O paradoxo dessa corrida é que os Estados Unidos foram os pioneiros no conceito de aeronaves não tripuladas furtivas a bordo de porta-aviões. A Marinha americana chegou a validar pousos e decolagens automatizados com protótipos avançados, mas decidiu canalizar seus recursos para o MQ-25 Stingray, projetado quase que exclusivamente como reabastecedor aéreo.

A China, por sua vez, seguiu em frente no desenvolvimento do GJ-11 e de sua variante GJ-21, além de outros modelos de asa voadora. Se conseguir transformar essas etapas de testes em doutrina operacional consolidada, o país asiático sairá na frente na ativação de drones furtivos embarcados de combate. Isso não significa que a aviação naval chinesa superou a americana em poderio geral, mas mostra que Pequim abriu vantagem em uma frente onde os EUA ainda não contam com resposta equivalente.

O Sichuan foi lançado ao mar em 27 de dezembro de 2024 e começou a navegar em testes em novembro de 2025. Com deslocamento total acima de 40.000 toneladas, segundo dados de Pequim, seu projeto permite integrar helicópteros, drones e forças de desembarque no mesmo casco. Ainda restam muitas incógnitas no ar: quantos GJ-21 o navio comporta, com que rapidez pode lançá-los, que armas carregarão ou qual o nível de integração com a frota principal.

O anúncio chinês tem um peso estratégico inegável, mesmo que ainda não comprove que o sistema esteja pronto para combate prolongado. O recado evidente está na direção da aposta: fazer de grandes navios de assalto verdadeiras bases aeronavais móveis para drones invisíveis. E o maior dilema para os Estados Unidos talvez não seja enfrentar mais navios inimigos, mas sim encarar uma frota capaz de lançar ataques aéreos a partir de embarcações que, até pouco tempo atrás, serviam apenas para transportar tropas.

Matéria traduzida de Xataka*

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