Quando um desastre natural obriga milhares de pessoas a abandonar suas casas, é comum imaginar que todos corram simplesmente para o local seguro mais próximo. No entanto, um novo estudo mostra que, em momentos de crise, as decisões humanas são muito mais complexas: além da segurança, as pessoas tendem a procurar lugares que lhes sejam familiares ou onde tenham conexões sociais.
Pesquisadores da Universidade de Nova York (NYU) analisaram dados anônimos de localização de mais de 200 mil celulares antes e depois do incêndio Marshall Fire, que devastou parte do estado do Colorado, nos Estados Unidos, no fim de 2021. O desastre destruiu mais de mil casas e obrigou milhares de moradores a deixarem suas residências em poucas horas.
Ao comparar os deslocamentos reais com modelos que levavam em conta apenas distância e tamanho das cidades, os cientistas perceberam um padrão claro: os evacuados frequentemente escolhiam destinos onde conheciam alguém ou que possuíam características sociais semelhantes às de suas comunidades de origem.
O sentimento de pertencimento influencia a decisão
Segundo os autores, mesmo sob extrema pressão, as pessoas não se deslocam aleatoriamente. Elas tendem a buscar locais onde sintam que pertencem ou onde existam amigos, familiares ou redes de apoio.
Esse comportamento pode fazer toda a diferença durante a recuperação após uma tragédia. Ter alguém para oferecer abrigo, transporte, ajuda com crianças ou simplesmente apoio emocional pode facilitar bastante o período de adaptação longe de casa.
A maioria permaneceu relativamente perto
Grande parte dos moradores evacuados escolheu destinos localizados entre 20 e 60 quilômetros da área atingida pelo incêndio. A distância permitia escapar do perigo sem se afastar completamente da região onde viviam.
Mesmo assim, a escolha dos locais não aconteceu por acaso. As cidades escolhidas apresentavam maior semelhança demográfica e mais conexões sociais do que seria esperado caso as pessoas estivessem apenas procurando o abrigo mais próximo.
O estudo também revelou diferenças importantes entre grupos sociais. Moradores de bairros mais ricos, com maior escolaridade e predominantemente brancos tiveram mais chances de encontrar destinos onde possuíam redes de apoio ou maior familiaridade. Já pessoas negras, asiáticas e moradores de áreas de menor renda apresentaram menos acesso a esse tipo de refúgio.
Essa desigualdade pode afetar diretamente a recuperação após um desastre, já que quem possui uma rede social forte costuma receber mais ajuda prática e emocional durante o período de deslocamento.
O destino também influencia o retorno para casa
Outro resultado curioso foi observado nos meses seguintes ao incêndio: as pessoas que se mudaram para locais onde tinham fortes conexões sociais apresentaram maior probabilidade de retornar às suas casas quando a situação melhorou.
Por outro lado, quem encontrou um local temporário muito semelhante à sua comunidade de origem, em termos de perfil social e demográfico, mostrou menor tendência de voltar rapidamente, possivelmente porque conseguiu reconstruir parte da rotina naquele novo ambiente.
Os pesquisadores acreditam que essas descobertas podem ajudar autoridades a planejar melhor futuras evacuações causadas por incêndios, enchentes, furacões e outros eventos climáticos extremos.
Hoje, muitos planos de emergência priorizam mapas de risco, estradas e abrigos. No entanto, compreender para onde as pessoas realmente desejam ir pode permitir uma distribuição mais eficiente de recursos, além de identificar grupos que possuem menos redes de apoio e podem precisar de assistência adicional.
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