Durante muito tempo, a ideia predominante sobre a gestação foi simples: o sexo do bebê não passa de uma questão de sorte. Se o espermatozoide com cromossomo X fecunda o óvulo, nasce uma menina; se for o Y, nasce um menino.
Apesar disso, novas pesquisas indicam que o ambiente biológico da mãe no momento da concepção pode influenciar esse processo — e um dos fatores mais relevantes pode ser o estresse.
Um estudo conduzido pela Universidade de Granada, na Espanha, encontrou uma associação inusitada: mulheres com níveis mais altos de estresse antes e durante o início da gravidez apresentaram quase o dobro de probabilidade de ter meninas.
Como os cientistas chegaram a essa conclusão
Para investigar essa relação, os pesquisadores acompanharam 108 mulheres desde antes da concepção até o parto.
O diferencial do estudo está na forma como o estresse foi medido: os cientistas analisaram a concentração de cortisol no cabelo das participantes.
O que é o cortisol? Muitas vezes chamado de "hormônio do estresse", o cortisol é um hormônio produzido pelas glândulas suprarrenais. Ele desempenha um papel vital em quase todos os órgãos do corpo, ajudando a regular o metabolismo, reduzir inflamações e controlar a resposta de "luta ou fuga" do organismo em situações de pressão ou perigo.
Esse método de pesquisa permite observar a exposição ao estresse ao longo do tempo, já que o hormônio se acumula nos fios capilares — oferecendo uma espécie de “histórico biológico” dos níveis de estresse. Além disso, as participantes também passaram por avaliações psicológicas, o que reforçou a consistência dos dados obtidos.
O que pode explicar essa influência
Embora a ciência ainda não tenha uma resposta definitiva, existem algumas hipóteses plausíveis — e complementares — para explicar o fenômeno.
Uma delas envolve o funcionamento do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, sistema responsável por regular a resposta do corpo ao estresse.
Quando ativado, ele altera a liberação de hormônios — incluindo aqueles ligados à reprodução. Essa mudança hormonal pode afetar diretamente o ambiente no qual ocorre a fecundação.
Outra hipótese do estudo está no comportamento dos espermatozoides.
Em condições consideradas “adversas” pelo organismo:
- Espermatozoides com cromossomo X (feminino) parecem ser mais resistentes;
- Espermatozoides com cromossomo Y (masculino) podem ser mais sensíveis
Isso faria com que, em cenários de maior estresse, os espermatozoides X tenham mais chances de alcançar o óvulo.
Cientistas também apresentaram uma terceira explicação
Os pesquisadores também consideram uma hipótese mais complexa: a de que fetos masculinos seriam mais vulneráveis nas fases iniciais da gestação.
Há evidências de que, sob condições de alto estresse materno, pode haver maior incidência de perdas gestacionais precoces de fetos masculinos — muitas vezes antes mesmo de a gravidez ser detectada.
Isso não significa que o estresse “escolhe” o sexo do bebê diretamente, mas sim que pode influenciar quais gestações conseguem evoluir.
O que a ciência já sabe sobre estresse e gravidez
Mesmo fora da discussão sobre o sexo do bebê, o impacto do estresse durante a gestação já é amplamente documentado.
Estudos anteriores mostram que níveis elevados de estresse estão associados a:
- Maior risco de depressão pós-parto;
- Maior probabilidade de intervenções no parto;
- Atraso no início da amamentação;
- Possíveis efeitos no desenvolvimento neurológico do bebê.
Ou seja, o estudo reforça algo que já é consenso: o ambiente emocional e fisiológico da mãe tem impacto direto na gestação.
Foto de capa: Feestocks/Unsplash
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