Em busca do “botão de Deus”: o que acontece com o nosso cérebro quando rezamos ou meditamos, segundo a neurociência

A neurociência quer entender o que acontece quando exploramos nossa espiritualidade

Neuroteologia
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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Joana d’Arc ouvia vozes divinas que guiavam seus passos na batalha. Santa Teresa de Jesus descrevia êxtases místicos que a deixavam paralisada. Durante séculos, essas experiências foram enquadradas exclusivamente no campo da fé e do dogma, mas a ciência moderna decidiu se debruçar sobre o abismo do misticismo com uma ferramenta muito mais terrena: os escâneres cerebrais.

Essa área da ciência se chama neuroteologia e é uma disciplina que está começando a emergir, embora não esteja livre de polêmica. Seu objetivo não é propriamente provar a existência de Deus, mas decifrar os circuitos neurais que se ativam quando os seres humanos tentam se comunicar com ele.

Em seu livro recente Las neuronas de Dios (“Os neurônios de Deus”), o biólogo e pesquisador Diego Golombek apresenta uma hipótese fascinante para as experiências mais místicas. Ela aponta que muitas das visões e vivências espirituais extremas documentadas por figuras que entraram para a história podem estar estreitamente ligadas a fenômenos neurológicos como a epilepsia do lobo temporal.

Segundo Golombek, essas tempestades elétricas no cérebro ativam regiões ligadas a emoções intensas e percepções alteradas, criando uma experiência que o indivíduo interpreta como um contato direto com a divindade. A questão, porém, é se existe um “botão de Deus” no cérebro ou uma área que se ativa quando nos concentramos em nossa espiritualidade. A resposta curta é que não.

O que se sabia

Durante anos especulou-se sobre a existência de um “módulo cerebral” exclusivo para o divino, mas estudos clássicos, como o realizado em 2006 pelo neurocientista Mario Beauregard com freiras carmelitas, desmentiram essa ideia.

Para demonstrar isso, ele colocou as religiosas em aparelhos de ressonância magnética funcional e pediu que revivessem suas experiências místicas mais profundas. Os resultados mostraram que não existe uma única “zona de Deus”, mas sim que a oração mobiliza uma rede complexa e muito ampla que inclui o núcleo caudado, a ínsula e o lobo parietal. Por isso, Deus, neurologicamente falando, é um esforço coletivo.

Além do debate sobre a origem das visões, a neuroteologia encontrou um campo muito fértil na psiquiatria e na saúde mental. Andrew B. Newberg, um dos pioneiros mundiais nessa área e autor de Principles of Neurotheology, passou décadas documentando como as práticas religiosas e a meditação alteram fisicamente a nossa matéria cinzenta.

Em estudos de 2025, a equipe de Newberg analisou as aplicações práticas da neuroteologia na psiquiatria integrativa. Os resultados são reveladores, pois pessoas com uma prática religiosa ou espiritual constante apresentam correlações significativas com níveis mais baixos de depressão e ansiedade, além de um maior bem-estar geral.

Por quê? Ao rezar ou meditar de forma rotineira, ocorre uma ativação sustentada em áreas como o córtex pré-frontal, responsável pela atenção e pela tomada de decisões, além de alterações na ínsula, o que sugere que essas práticas exercem um efeito protetor sobre a saúde mental. Para autores como Newberg ou o próprio Víctor Páramo Valero, esses dados rejeitam explicações puramente materialistas e reducionistas, já que a neurociência não nega Deus, mas explica como nosso cérebro está equipado para processar a espiritualidade.

Nem tudo na neuroteologia é um caminho tranquilo, pois também existem muitas críticas em torno dela. Um exemplo é o pesquisador Javier Bernácer, que alerta para o perigo de confundir correlação com causalidade. Assim, o fato de certas áreas do cérebro se iluminarem em um escâner enquanto alguém reza não prova que a oração seja a única causa dessa ativação. Ele aponta que muitas das neuroimagens atuais oferecem “anedotas, não provas definitivas”, e defende que a disciplina adote ensaios controlados para descartar vieses cognitivos.

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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