O Brasil é um país que ainda criminaliza a maconha em diversas situações e onde a planta continua cercada por estigmas sociais e políticos. Por isso, é difícil imaginar que houve um período em que o próprio Estado incentivava seu cultivo e que medicamentos à base de cannabis eram vendidos livremente em farmácias. Registros antigos mostram que, entre os séculos XVIII e o início do XX, a planta fazia parte da economia, da medicina e de projetos oficiais da Coroa portuguesa. Com o avanço das políticas proibicionistas, porém, essa história foi praticamente apagada da memória.
Antes da proibição, o governo incentivava o cultivo e a cannabis fazia parte da medicina brasileira
Muito antes de a maconha se tornar alvo das políticas de combate às drogas, ela ocupava um espaço bastante diferente no Brasil. Ainda no período colonial, a Coroa portuguesa promoveu iniciativas para expandir o cultivo do cânhamo, uma variedade da Cannabis sativa utilizada principalmente para produzir fibras empregadas na fabricação de cordas, tecidos e velas das embarcações.
Entre essas iniciativas esteve a criação da Real Feitoria do Linho Cânhamo, em 1783, no Rio Grande do Sul. O empreendimento recebeu sementes fornecidas pelo governo, mão de obra e estrutura para tentar estabelecer uma produção em larga escala destinada ao abastecimento da marinha portuguesa. Apesar do projeto não ter alcançado o sucesso esperado, ele demonstra que o cultivo da planta fazia parte de uma estratégia econômica oficial do país. Outras ações seguiram o mesmo caminho. Em 1785, por exemplo, o vice-rei Luís de Vasconcelos e Sousa chegou a distribuir sementes e orientações técnicas para estimular agricultores da Capitania de São Paulo a cultivar a planta, considerada importante para a economia da época.
Além do uso industrial, a cannabis também estava presente na medicina. Conforme resgatado pelo historiador Saulo Carneiro, no livro “Antes da Proibição: Quando a Maconha Era Remédio”, farmácias brasileiras comercializavam medicamentos à base de cannabis produzidos principalmente na França, indicados para problemas respiratórios, como asma, bronquite, tosse e catarro. A planta também fazia parte da medicina popular e era utilizada como analgésico em várias regiões do país.
O estigma nasceu das políticas proibicionistas e mudou completamente a forma como a planta passou a ser vista
A maneira como a maconha era vista no país começou a mudar ao longo do século XIX. Embora a cannabis continuasse presente na medicina e no cotidiano de parte da população, especialmente entre comunidades afro-brasileiras, seu uso recreativo e religioso passou a ser cada vez mais associado pelas autoridades ao controle social dessas populações.
A primeira norma proibicionista surgiu no Rio de Janeiro, em 1830, conhecida como Lei do Pito do Pango, que previa punições para usuários e vendedores. Nas décadas seguintes, outras cidades adotaram medidas semelhantes até que, o governo federal passou a enquadrar oficialmente a cannabis como substância entorpecente, em 1932, proibindo o cultivo, comércio e utilização.
Esse processo foi influenciado não apenas por mudanças nas políticas de saúde pública, mas também por fatores sociais e raciais que ajudaram a construir o estigma em torno da planta. Ao mesmo tempo, medicamentos industrializados passaram a substituir gradualmente os antigos à base de cannabis. Hoje, a produção, comercialização e o uso da substância seguem proibidos pela legislação brasileira, menos em casos autorizados para fins medicinais.
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