Pesquisadores identificaram mutações raras em uma das bactérias mais perigosas encontradas em hospitais que estão permitindo que ela escape da ação de um dos antibióticos mais importantes da medicina moderna. A descoberta aumenta a preocupação com o avanço da resistência antimicrobiana, considerada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) uma das maiores ameaças à saúde pública.
O estudo, publicado na revista Microbiology Spectrum, investigou casos de pneumonia grave em pacientes na China e revelou duas novas variantes da enzima KPC, chamadas KPC-71 e KPC-78. Essas mutações foram encontradas em bactérias da espécie Pseudomonas aeruginosa, conhecida por causar infecções hospitalares difíceis de tratar, principalmente em pacientes internados em unidades de terapia intensiva ou com o sistema imunológico comprometido.
Enzimas variantes raras | Créditos: Microbiology Spectrum (2026)
Superbactérias continuam evoluindo
Os cientistas descobriram que pequenas alterações na estrutura da enzima modificam a forma como ela interage com a combinação de antibióticos ceftazidima-avibactam (CZA), considerada um tratamento de última linha quando outros medicamentos já não funcionam. As mutações fazem com que a enzima destrua a ceftazidima com mais eficiência e, ao mesmo tempo, dificultam a ação do avibactam, composto responsável por bloquear esse mecanismo de resistência.
Para confirmar que essas variantes eram realmente as responsáveis pela perda de eficácia do medicamento, os pesquisadores inseriram os genes mutantes em uma cepa de laboratório da bactéria. O resultado se mostrou logo de cara: as bactérias modificadas também passaram a resistir ao tratamento.
Os pesquisadores observaram, no entanto, que essa adaptação tem um custo. As novas enzimas reduziram a capacidade da bactéria de resistir aos carbapenêmicos, outro grupo importante de antibióticos. Mesmo assim, as amostras retiradas dos pacientes apresentavam níveis de resistência ainda maiores, indicando que outros mecanismos também contribuem para fortalecer essas superbactérias.
Segundo a OMS, a resistência antimicrobiana esteve diretamente ligada a cerca de 1,27 milhão de mortes em 2019, e projeções indicam que esse número poderá crescer significativamente nas próximas décadas.
Os autores defendem um monitoramento constante dessas mutações, especialmente em hospitais, para que novas formas de resistência sejam identificadas antes que comprometam ainda mais uma das últimas linhas de defesa disponíveis contra infecções graves.
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