Relato original de Javier Lacort, do Xataka Espanha
Há alguns dias, vi um tuíte que dizia o seguinte:
“Houve um tempo em que a felicidade tinha a forma humilde de uma tarde qualquer. Chegar em casa, ligar o PS2 e desaparecer por horas.”
É um daqueles tuítes que conseguem tocar uma fibra nostálgica e dar nome a algo que muita gente sente, mas ainda não soube articular.
A leitura mais fácil é a nostalgia da juventude: éramos jovens, não tínhamos responsabilidades, tínhamos tardes inteiras para perdê-las no GTA da vez. Isso é verdade, mas é apenas metade da história.
A outra metade é que vivíamos aquelas tardes com uma atenção que hoje nos parece quase impossível de reproduzir. Não havia nada competindo por ela. A tela era uma só, o mundo era aquele, e a mente permanecia ali dentro por horas sem que ninguém a chamasse de volta.
Isso já não existe. Não porque tenhamos menos tempo livre — o que também é verdade, já que a vida adulta nos atropela, como é natural —, mas porque o tempo livre que temos deixou de ser habitável da mesma maneira. O celular não interrompe apenas quando toca: ele interrompe o tempo todo sem fazer nada, com sua simples presença no bolso, com a possibilidade sempre aberta de que haja algo ali dentro que ainda não vimos.
O ano acadêmico de 2007/2008 foi absolutamente espetacular para o meu grupo de amigos. Dos seis que éramos, quatro tinham namorada. Terminamos o ano todos solteiros. Um dos motivos foi que adorávamos passar horas todos juntos jogando PES 2008.
Alguns anos depois, quisemos recuperar aqueles momentos, mas nunca foi igual. O que havia mudado é que todos já tínhamos smartphone e redes sociais, e todos acabávamos com os olhos voltados para ele, a tela individual, em vez de para a TV, a tela coletiva, o que nos fazia perder o fio do que os outros estavam fazendo e tornava a experiência completamente diferente.
Mesmo jogando sozinho, as telas de carregamento, que antes eram um momento de pausa mental ou de ir buscar outra Coca-Cola, tornaram-se o gatilho automático para pegar o celular. Os cérebros que cresceram com aquelas tardes de PS2 foram reconfigurados para não tolerar nem quinze segundos de vazio, como acontece quando esperamos o elevador ou temos alguém à nossa frente na fila do supermercado.
O resultado é uma forma estranha de perda que é difícil de nomear, porque não nos tiram nada concreto. Embora tenhamos mais responsabilidades e menos tempo livre, ainda temos alguns momentos livres. Continuamos tendo acesso a jogos. O que não temos é a capacidade de nos mergulhar neles da mesma forma, de deixar que o mundo se estreite até que só aquilo exista.
Essa capacidade — a de dedicar atenção completa a uma única coisa durante horas — era um recurso que não sabíamos que tínhamos até que ele foi sendo retirado de forma tão gradual que não percebemos nem mesmo em que momento desapareceu.
Por isso, o tuíte não falava na verdade do PS2. Falava disso. Da última vez em que um retângulo de plástico foi suficiente para que o resto do mundo deixasse de existir durante uma tarde inteira.
Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.
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